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sexta-feira, 24 de julho de 2020

Filosofia em Tempos de Pandemia - A peste (Albert Camus) - Parte 5

Trechos selecionados

Quanto a Castel, no dia em que veio anunciar a Rieux que o soro estava pronto e depois de terem decidido fazer a primeira experiência no garoto do Sr. Othon, que acabavam de remover para o hospital e cujo caso parecia desesperador a Rieux, este comunicava ao velho amigo as últimas estatísticas quando reparou que seu interlocutor adormecera profundamente na cadeira. E, diante desse rosto em que habitualmente um ar de ternura e de ironia punha uma perpétua juventude e que agora, subitamente abandonado, com um filete de saliva a unir-lhe os lábios entreabertos, deixava ver os estragos e a velhice, Rieux sentiu um aperto na garganta.
Era por tais fraquezas que Rieux podia julgar o seu cansaço. A sensibilidade lhe fugia. Amarrada a maior parte do tempo, endurecida e seca, irrompia de vez em quando e abandonava-o a emoções que já não conseguia dominar. Sua única defesa era refugiar-se nesse endurecimento e apertar o nó que nele se formara. Sabia efetivamente que essa era a melhor maneira de continuar. Quanto ao resto, não tinha muitas ilusões e o seu cansaço tirava-lhe as que ainda conservava. Porque sabia que, durante um período cujo término não conseguia vislumbrar, o seu papel já não era o de curar. O seu papel era diagnosticar. Descobrir, ver, descrever, registrar, depois condenar, essa era a sua tarefa. Esposas agarravam-lhe as mãos e gritavam: "Doutor, dê-lhe a vida!" Mas ele não estava ali para dar vida, estava ali para ordenar o isolamento. De que servia o ódio que lia, então, nas fisionomias? "O senhor não tem coração", tinham-lhe dito um dia. Sim, ele tinha um coração. Servia-lhe para suportar as vinte horas por dia em que via morrer homens que haviam sido feitos para viver. Servia-lhe para recomeçar todos os dias. De agora em diante, o coração mal dava para isso. Como esse coração seria suficiente para dar vida?
Não, não eram socorros que ele distribuía durante todo o dia, e sim informações. (...) Antes da peste, recebiam-no como um salvador. Ele ia consertar tudo com três pílulas e uma seringa, e apertavam-lhe o braço ao conduzi-lo pelos corredores. Era lisonjeiro, mas perigoso. Agora, pelo contrário, apresentava-se acompanhado de soldados, era necessário dar coronhadas para que a família se decidisse a abrir a porta. Teriam desejado arrastá-lo e arrastar toda a humanidade com eles para a morte.
(...) Mas o efeito mais perigoso do esgotamento que vencia, pouco a pouco, todos os que continuavam a luta contra o flagelo não estava nessa indiferença aos acontecimentos exteriores e às emoções dos outros, e sim na negligência a que haviam chegado. Porque tinham então tendência a evitar todos os gestos que não fossem absolutamente indispensáveis e que lhes pareciam sempre acima das suas forças. Foi assim que esses homens chegaram a desprezar cada vez mais as regras de higiene que tinham codificado, a esquecer algumas das desinfecções que deviam praticar contra o contágio, para junto de doentes atacados de peste pulmonar, porque, alertados no último momento de que deviam dirigir-se a casas infectadas, tinha-lhes parecido de antemão exaustivo voltarem a qualquer local para fazerem as instilações necessárias. Nisso residia o verdadeiro perigo, pois era a própria luta contra a peste que os tornava então mais vulneráveis à peste. Apostavam, em suma, no acaso e o caso não pertence a ninguém.


Filosofia em Tempos de Pandemia - A peste (Albert Camus) - Parte 1

Apresentando o livro e o autor

O livro A peste, escrito em 1947, nos traz as anotações de um cronista a respeito dos "curiosos acontecimentos" que teriam se dado na cidade de Orã, por volta dos anos 1940. Segundo o cronista, Orã é "uma cidade comum" e "feia", "não passando de uma prefeitura francesa na costa argelina", à primeira vista igual a muitas outras vilas. No entanto, o clima e o relevo local fazem da cidade um lugar peculiar: "um lugar neutro".
O romance A peste pode ser lido como um relato sobre uma cidade assolada por uma epidemia ou como uma alegoria para acontecimentos históricos que deixaram marcas profundas na humanidade: uma referência à França ocupada na Segunda Guerra Mundial pelo Nazismo.
Albert Camus, o autor, foi jornalista, filósofo e escritor, de origem argelina. Prêmio Nobel de Literatura em 1957, é considerado um dos grandes autores do século XX e principal representante de uma corrente de pensamento conhecida como absurdismo.

O contexto da pandemia do novo coronavírus fez com que muitas pessoas se voltassem para essa que é uma das principais obras de Camus, A peste. Os textos selecionados neste blog funcionarão como provocações e como mote para que possamos, diante dos acontecimentos desse ano de 2020, nos sensibilizar, problematizar a realidade que nos cerca e, finalmente, filosofar! Vamos nessa?

A cidade de Orã e os primeiros casos - trechos selecionados

(...) Uma forma conveniente de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa pequena cidade, talvez por efeito do clima, tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético e distante. Isto é: aqui as pessoas se entediam e se dedicam a criar hábitos. Nossos concidadãos trabalham muito, mas apenas para enriquecer. Interessam-se sobretudo pelo comércio e ocupam-se, em primeiro lugar, segundo sua própria expressão, de fazer negócios.  (...) Dir-se-á, sem dúvida, que nada disso é exclusivo de nossa cidade e que, em suma, todos os nossos contemporâneos são assim. Nada mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por desperdiçar no jogo, nos cafés e em tagarelices o tempo que lhes resta para viver. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez em quando, suspeitam que exista algo mais. Isso, em geral, não muda a vida deles. Simplesmente houve a suspeita, o que já é alguma coisa. Orã, ao contrário, é uma cidade aparentemente moderna. Não é necessário, portanto, definir a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar de ato de amor, ou se entregam ao hábito de uma longa vida a dois. Tampouco isso é original. Em Orã, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber.
O que é mais original na nossa cidade é a dificuldade que se pode ter para morrer. Dificuldade, aliás, não é o termo exato: seria mais certo falar em desconforto. Nunca é agradável ficar doente, mas há cidades e países que nos amparam na doença e onde podemos, de certo modo, nos entregar. O doente precisa de carinho, ter algo em que se apoiar. Isso é muito natural. Em Orã, porém, os excessos do clima, a importância dos negócios, a insignificância do cenário, a rapidez do crepúsculo e a qualidade dos prazeres, tudo exige boa saúde. Lá o doente fica muito só. O que dizer então daquele que vai morrer, apanhado na armadilha por detrás das paredes crepitantes de calor, enquanto, no mesmo minuto, toda uma população, ao telefone ou nos cafés, fala de câmbio, de notas fiscais ou de desconto? Compreende-se o que há de desconfortável na morte, mesmo nos dias de hoje, quando ela chega assim a um lugar seco.
(...) O importante é ressaltar o aspecto banal da cidade e da vida. Mas os dias passam sem dificuldades, desde que se tenha criado hábitos. Partindo-se do princípio que  a nossa cidade favorece justamente os hábitos, pode-se dizer que tudo vai bem. Sob esse aspecto, sem dúvida, a vida não é muito emocionante. Ao menos desconhece-se a desordem. E a nossa população franca, simpática e ativa sempre despertou no viajante uma estima considerável. Esta cidade sem pitoresco, sem vegetação e sem alma acaba parecendo repousante e afinal adormece-se nela.
(...) Agora podemos admitir sem pesar que nada podia fazer nossos concidadãos preverem os incidentes que se deram na primavera desse ano e que foram, como compreendemos depois, os primeiros sinais dos graves acontecimentos cuja crônica nos propusemos fazer aqui.

(...)O Dr. Rieux sabia alguma coisa a esse respeito. Isolado o corpo do porteiro, telefonara a Richard para interrogá-lo sobre essas febres inguinais.
- Não compreendo nada - respondeu Richard. - Dois mortos, um em 48 horas, o outro, em três dias. Eu tinha deixado o último, uma manhã, com todos os indícios de convalescença.
- Avise-me se houver outros casos - disse Rieux.
Telefonou ainda para outros médicos. Essa sindicância mostrou uns vinte casos semelhantes em alguns dias. Quase todos tinham sido fatais. Pediu então a Richard, secretário do Sindicato dos Médicos de Orã, o isolamento dos novos doentes.
- Mas não posso fazer nada - respondeu Richard. - Essas providências são com a Prefeitura. Além disso, quem lhe diz que há risco de contágio?
- Ninguém, mas os sintomas são inquietantes.
Richard, entretanto, achava que não tinha "competência". Tudo o que podia fazer era falar com o prefeito.
Porém, enquanto se falava, perdia-se tempo.

Camus, Albert, A peste, Record.


Filosofia em Tempos de Pandemia - A peste (Albert Camus) - Parte 4

trechos selecionados

(...) por volta do fim do mês, as autoridades eclesiásticas da nossa cidade decidiram lutar contra a peste pelos seus próprios meios, organizando uma semana de preces coletivas. Essas manifestações da piedade pública devia terminar no domingo com uma missa solene, sob a invocação de São Roque, o santo atacado pela peste. Nessa ocasião, tinham dado a palavra ao padre Paneloux.

(...)

A semana de preces foi seguida por um público numeroso. Não é que em tempos normais os habitantes de Orã sejam particularmente piedosos. No domingo de manhã, por exemplo, os banhos de mar fazem séria concorrência à missa. Não é também que uma súbita conversão os tivesse iluminado. Mas, por um lado, com a cidade fechada e porto interditado, os banhos não eram possíveis, e, por outro lado, eles se encontravam num estado de espírito bem singular em que, sem terem admitido no fundo de si próprios os acontecimentos surpreendentes que os atingiam, sentiam efetivamente que algo, obviamente, mudara. No entanto, muitos continuavam a esperar que a epidemia cessasse e que eles fossem poupados, com as suas famílias. Por consequência, não se sentiam ainda obrigados a nada. A peste nada mais era para eles do que uma visita desagradável que havia de partir um dia. Assustados, mas não desesperados, não chegara ainda o momento em que a peste lhes surgiria como a própria forma da sua vida em que esqueceriam a existência que até então tinham podido levar. Em suma, estavam na expectativa. No que se refere à religião, como a muitos outros problemas, a peste tinha-lhes dado uma singular atitude de espírito, tão afastada da indiferença com da paixão, que podia definir-se pela palavra "objetividade". a maior parte dos que seguiram a semana de preces poderia ter feito sua a frase que um dos fiéis havia proferido diante do Dr. Rieux: "De qualquer maneira, mal não pode fazer." O próprio Tarrou, depois de ter anotado nos seus cadernos que os chineses, em situação semelhante, vão tocar tambor diante do gênio da peste, observava que era absolutamente impossível saber se, na realidade, o instrumento se mostrava mais eficaz que as medidas profiláticas.

(...)

Um cheiro de incenso e de umidade flutuava na catedral quando o padre Paneloux subiu ao púlpito. (...) Tinha uma voz forte, apaixonada, que ia longe, e, quando atacou a assistência com uma única frase veemente e martelada, "Irmãos, caístes em desgraça, irmãos, vós o merecestes", a assistência se agitou.

(...) Logo depois dessa frase, Paneloux citou o texto do Êxodo relativo à peste no Egito e disse: " A primeira vez que este flagelo aparece na história é para atacar os inimigos de Deus. O faraó opõe-se aos desígnios eternos e a peste o faz então cair de joelhos. Desde o princípio de toda a história, o flagelo de Deus põe a seus pés os orgulhosos e os cegos. Meditai sobre isso e caí de joelhos."

(...)Paneloux endireitou-se então, respirou profundamente e continuou, num tom mais veemente: "Se hoje a peste vos olha, é porque chegou o momento de refletir. Os justos não podem temê-la, mas os maus têm razão para tremer. Na imensa granja do Universo, o flagelo implacável baterá o trigo humano até que o joio se separe do grão. Haverá mais joio que grão, mais chamados que eleitos e esta desgraça não foi desejada por Deus. Por longo tempo, este mundo compactuou com o mal, repousando na misericórdia divina. Bastava arrepender-se, tudo era permitido. E para se arrependerem todos se sentiam fortes. Chegado o momento, o arrependimento viria por certo. Até lá, o mais fácil era deixar-se levar; a misericórdia divina faria o resto. Pois bem! Isso não podia durar. Deus, que durante tanto tempo baixou sobre os homens desta cidade o seu rosto de piedade, cansado de esperar, desiludido na sua eterna esperança, acaba de afastar o olhar. Privados da luz de Deus, eis-nos por muito tempo nas trevas da peste!"
                                                                                                             Camus, Albert, A peste, Record.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Filosofia em Tempo de Pandemia - A peste (Albert Camus) - Parte 2

 Trechos selecionados 
A palavra "peste" acaba de ser pronunciada pela primeira vez. Neste ponto da narrativa, com Bernard Rieux atrás da janela, permitir-se-á ao narrador que justifique a incerteza e o espanto do médico, já que, com algumas variações, sua reação foi a da maior parte dos nossos concidadãos. Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo igual número de pestes e de guerras. E contudo as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. Rieux estava desprevenido, assim como os nossos concidadãos; é necessário compreender assim as suas hesitações. Por isso é preciso compreender, também, que ele estivesse dividido entre a inquietação e a confiança. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: "Não vai durar muito, seria estúpido." Sem dúvida, uma guerra é uma tolice, o que não impede de durar. A tolice insiste sempre, e nós a compreenderíamos se não pensássemos sempre em nós. Nossos concidadãos, a esse respeito, eram como todo mundo: pensavam em si próprios. Em outras palavras, eram humanistas: não acreditavam nos flagelos. O flagelo não está à altura do homem; diz-se então que o flagelo é irreal, que é um sonho mau que vai passar. Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau em sonho mau que vai, são homens que passam e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções. Nossos concidadãos não eram mais culpados que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo ainda era possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste que suprime o futuro, os deslocamentos e as discussões? Julgavam-se livre e jamais alguém será livre enquanto houver flagelos.

(...)
No dia em que o número de mortos atingiu de novo trinta, Bernard Rieux olhava o telegrama oficial que o prefeito lhe estendera exclamando: "Estão com medo!" O telegrama dizia: "Declarem o estado de peste. Fechem a cidade."
A partir desse momento, pode-se dizer que a peste se tornou um problema comum a todos nós. Até então, apesar da surpresa e da inquietação trazidas por esses acontecimentos singulares, cada um dos nossos concidadãos seguira com suas ocupações conforme pudera, no seu lugar habitual. E, sem dúvida, isso devia continuar. No entanto, uma vez fechadas as portas, deram-se conta de que estavam todos, até o próprio narrador, metidos no mesmo barco e que era necessário ajeitar-se. Foi assim, por exemplo, que, a partir das primeiras semanas, um sentimento tão individual quanto o da separação de um ente querido se tornou, subitamente, o de todo um povo e, com o medo, o principal sofrimento desse longo período de exílio. 

Na verdade, uma das consequências mais importantes do fechamento das portas foi a súbita separação em que foram colocados seres que não estavam preparados para isso. Mães e filhos, esposos, amantes que tinham julgado proceder, alguns dias antes, a uma separação temporária, que se tinham beijado na plataforma da nossa estação, com duas ou três recomendações, certos de se reverem dali a alguns dias ou algumas semanas, mergulhados na estúpida confiança humana, momentaneamente distraídos de suas ocupações habituais por essa partida, viram-se de repente, irremediavelmente afastados, impedidos de se encontrarem ou de se comunicarem.

(...)Assim, a primeira coisa que a peste trouxe aos nossos concidadãos foi o exílio. E o narrador está convencido de que pode escrever aqui, em nome de todos, o que ele próprio sentiu então, já que o sentiu ao mesmo tempo que muitos dos nossos concidadãos.

(...) Apesar desses espetáculos inéditos, parece que os nossos concidadãos tinham dificuldade em compreender o que lhes acontecia. Havia os sentimentos comuns, como a separação ou o medo, mas continuavam a colocar em primeiro plano as preocupações pessoais. Ninguém aceitara ainda verdadeiramente a doença. A maior parte era sobretudo sensível ao que perturbava os seus hábitos ou atingia os seus interesses. Impacientavam-se, irritavam-se e esses não são sentimentos que se possa contrapor à peste. A primeira reação, por exemplo, era culpar as autoridades. A resposta do prefeito diante das críticas de que a imprensa fazia eco ("Não se poderia propor medidas mais flexíveis?") foi bastante imprevista. Até então, nem os jornais nem a Agência Ransdoc tinham recebido qualquer estatística oficial sobre a doença. O prefeito passou a comunicá-la diariamente à agência, pedindo-lhe que publicasse uma nota semanal.

Mesmo nesse caso, contudo, a reação do público não foi imediata. Na verdade, o anúncio de que a terceira semana de peste somava 302 mortos não falava à imaginação. Por um lado, talvez nem todos tivessem morrido de peste. Por outro lado, ninguém na cidade sabia quantas pessoas morriam por semana em tempos normais. A cidade tinha 200 mil habitantes. Ignorava-se se essa proporção de óbitos era normal. É esse o gênero de detalhes com que nunca nos preocupamos, apesar do interesse evidente que apresentam. Ao público faltavam, de algum modo, ponto de referência. Foi só com o tempo, ao constatar o aumento das mortes, que a opinião pública tomou consciência da verdade. Com efeito, a quinta semana deixou 321 mortos e sexta, 345. O aumento, pelo menos, era significativo. Mas não era bastante forte para impedir que nossos concidadãos, em meio à sua inquietação, tivessem a impressão de que se tratava de um acidente, sem dúvida desagradável, mas, apesar de tudo, temporário.

Continuavam assim a circular nas ruas e a sentar-se às mesas dos cafés. (...)


flagelo: punição física, castigo, tortura; tormento, peste, calamidade pública;

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Filosofia em Tempo de Pandemia - A peste (Albert Camus) - Parte 3

Trechos selecionados 

Até então, a peste tinha feito muito mais vítimas nos subúrbios, mais povoados e menos confortáveis, que no centro da cidade. Mas ela pareceu de repente aproximar-se e instalar-se também nos bairros comerciais. Os habitantes acusavam o vento de transportar os germes da infecção. (...) Fosse como fosse, porém, os bairros do centro sabiam que tinha chegado a sua vez ao ouvirem vibrar muito perto deles, na noite, e cada vez com mais frequência, a sirene das ambulâncias, que fazia ressoar sob as suas janelas o apelo monótono e desapaixonado da peste. 

Até no próprio interior da cidade, teve-se a ideia de isolar certos bairros particularmente castigados e de só autorizar a saída dos homens cujos serviços eram indispensáveis. Os que ali viviam até então não puderam deixar de considerar essa medida como uma peça que lhes havia sido pregada especialmente e, em todo caso, por contraste, pensavam nos habitantes dos outros bairros como homens livres. 

(...) Mais ou menos nessa época, houve também uma recrudescência de incêndios, sobretudo nos bairros residenciais à entrada oeste da cidade. As informações revelaram que se tratava de pessoas egressas da quarentena e que, enlouquecidas pelo luto e pela desgraça, ateavam fogo às suas casas na ilusão de que faziam morrer a peste. (...) E, sem dúvida, não era a pena de prisão que fazia recuar esses infelizes, mas a certeza, comum a todos os habitantes, de que uma pena de prisão equivalia a uma pena de morte, em consequência da excessiva mortalidade verificada na penitenciária municipal. Evidentemente, essa crença não era destituída de fundamento: por motivos óbvios, parecia que a peste se empenhara em atacar particularmente aqueles que tinham adquirido o hábito de viver em grupo - soldados, religiosos e prisioneiros.

(...) Porque é efetivamente necessário falar dos enterros e o narrador pede desculpas. Sente naturalmente a crítica que lhe poderia ser feita a este respeito, mas a única justificativa é que houve enterros durante toda essa época que, de certo modo, obrigaram-no, como obrigaram a todos os nossos concidadãos, a preocupar-se com enterros. Não é, em todo caso, que ele goste desse tipo de cerimônias, preferindo, pelo contrário a sociedade dos vivos e, para dar um exemplo, os banhos de mar.

(...) Pois bem, o que caracterizava no início as nossas cerimônias era a rapidez! Todas as formalidades haviam sido simplificadas e, de uma maneira geral, a pompa fúnebre fora suprimida. Os doentes morriam longe da família e tinham sido proibidos os velórios rituais, de modo que os que morriam à tardinha passavam a noite sós e os que morriam de dia eram enterrados sem demora. Naturalmente, a família era avisada, mas, na maior parte dos casos, não podia deslocar-se por estar de quarentena, se tinha vivido perto do doente. No caso de a família não morar com o defunto, apresentava-se à hora indicada, que era a da partida para o cemitério, depois de o corpo ter sido lavado e colocado no caixão.

(...) E, sem dúvida, no princípio, pelo menos, é evidente que o sentimento natural das famílias se ofendia. Em tempo de peste, porém, não é possível levar em conta semelhantes considerações: tinha-se sacrificado tudo à eficácia. Além disso, se a princípio, o moral da população se ressentira com essas práticas, porque o desejo de ser enterrado decentemente é muito mais profundo do que se supõe, pouco depois, por felicidade, o problema do abastecimento tornou-se delicado e o interesse dos habitantes migrou para preocupações mais imediatas. Absorvidos pelas filas que era preciso fazer, pelas providências a tomar pelas formalidades a cumprir caso quisessem comer, as pessoas não tiveram tempo de se ocupar da maneira como se morria à sua volta e como elas próprias morreriam um dia. (...) E tudo teria corrido bem, se a epidemia não tivesse alastrado, como já vimos.

Pois os caixões escassearam, faltou pano para as mortalhas e lugar nos cemitérios. Foi necessário tomar algumas precauções. O mais simples, e ainda por razões de eficácia, pareceu agrupar as cerimônias e, quando a coisa era necessária, multiplicar as viagens entre o hospital e o cemitério. (...) No cemitério, eram esvaziados, os corpos cor de ferro eram colocados em macas e esperavam num local preparado para esse fim. Os caixões eram regados com uma solução antisséptica e levados novamente para o hospital, onde a operação recomeçava tantas vezes quantas fossem necessárias.


Igualdade entre homens e mulheres (1622) - Marie de Gournay

  “A maioria dos que defendem a causa das mulheres, lutando contra essa orgulhosa preferência que os homens se atribuem, lhes dá o troco com...