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quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Muito Prazer (Fernando Savater)

 (...) Quando as pessoas falam em "moral", e sobretudo em "imoralidade", 80% das vezes - e com certeza estou subestimando esse número - o sermão trata de alguma coisa referente ao sexo. Tanto que alguns acham que a moral se dedica antes de tudo a julgar o que as pessoas fazem com seus genitais. O absurdo não poderia ser maior, e suponho que, por menor atenção que tenha dado ao que acabo de dizer até agora, você não concorda com isso. No sexo, em si, não há nada mais "imoral" do que na alimentação ou nos passeios pelo campo; claro que alguém pode comportar-se imoralmente no sexo (utilizando-o para prejudicar outra pessoa, por exemplo), assim como há quem coma a ração do vizinho ou aproveite seus passeios para planejar atentados terroristas. Como a relação sexual pode chegar a estabelecer vínculos muito poderosos e complicações afetivas muito delicadas entre as pessoas, é lógico que se levem em conta especialmente as considerações devidas aos semelhantes nesses casos. Quanto ao mais, no entanto, quero dizer simplesmente que naquilo que dá prazer a dois e não prejudica a nenhum não há nada de mau. O que de fato é "mau" é as pessoas acharem que haja algo de mau em ter prazer...

(...) a experiência sexual não pode limitar-se simplesmente à função procriadora. Nos seres humanos, os dispositivos naturais para garantir a perpetuação da espécie sempre têm outras dimensões que a biologia não parece ter previsto. A eles acrescentam-se símbolos e refinamentos, invenções preciosas dessa liberdade sem a qual os homens não seriam homens. É paradoxal aqueles que veem algo de "mau" ou pelo menos de "ilícito" no sexo dizerem que se dedicar a ele com entusiasmo excessivo animaliza o homem. A verdade é que são justamente os animais que só utilizam o sexo para procriar, assim como só os animais utilizam a comida para se alimentar ou o exercício físico para conservar a saúde; os seres humanos, por outro lado, inventaram o erotismo, a gastronomia e o atletismo. (...) Quanto mais o homem separa o sexo da simples procriação, menos animal e mais humano ele se torna. Claro, isso tem consequências boa e más, como sempre acontece quando a liberdade está em jogo...

O que se esconde em toda essa obsessão sobre a "imoralidade" sexual não é nem mais nem menos do que um dos mais velhos temores sociais do homem: o medo do prazer.  O prazer sexual é tão cercado de tantas suspeitas e cautelas justamente por se destacar entre os mais intensos e vivos que se podem sentir. Por que o prazer assusta? Suponho que seja por nos agradar demais. (...) O prazer às vezes nos distrai mais do que convém, o que pode acabar sendo falta. Por isso os prazeres sempre foram objeto de tabus e restrições, cuidadosamente racionados, permitidos apenas em certas datas, etc.: trata-se de precauções sociais (que às vezes perduram mesmo quando já não são necessárias) para que ninguém se distraia demais do perigo de viver. 

(...) "Devemos segurar com unhas e dentes o uso dos prazeres da vida, que os anos vão nos tirando um depois do outro" (Michel de Montaigne). Quero destacar duas coisas dessa frase de Montaigne. A primeira aparece no final da recomendação, e diz que os anos vão tirando incessantemente possibilidades de gozo, e que por isso não é prudente esperar demais para resolver desfrutar. Se esperamos muito para desfrutar, acabaremos deixando de fazê-lo... É preciso saber entregar-se a saborear o presente, o que os romanos (e o profe-poeta meio enfadonho de A sociedade dos poetas mortos) resumiam no ditado carpe diem. Isso não quer dizer que você deve buscar hoje todos os prazeres, mas que deve buscar todos os prazeres de hoje. (...) Isso me leva ao princípio da frase de Montaigne que mencionei antes, quando fala em segurar com unhas e dentes "o uso dos prazeres da vida". O bom é usar os prazeres, ou seja, sempre ter certo controle sobre eles, não permitindo que se voltem contra o resto do que constitui sua existência pessoal. 

(...) O prazer é muito agradável, mas tem uma tendência prejudicial a ser exclusivo: se você se entregar a ele com demasiada generosidade, ele será capaz de deixá-lo sem nada, sob o pretexto de fazê-lo viver bem. Usar os prazeres, como diz Montaigne, é não permitir que qualquer um deles elimine a possibilidade de todos os outros ou esconda completamente o contexto da vida, nada simples, em que cada um tem sua ocasião. A diferença entre o "uso" e o "abuso" é exatamente essa: quando usamos um prazer, enriquecemos nossa vida e gostamos cada vez mais, não só do prazer, mas da própria vida; o sinal de que estamos abusando é notar que o prazer vai nos empobrecendo a vida e que já não nos interessamos por ela, mas apenas por esse prazer particular. 

(...) A ética consiste em apostar em que a vida vale a pena, pois a´te as penas da vida valem a pena. E valem a pena porque é através delas que podemos alcançar os prazeres da vida, sempre contínuos - é o destino - às dores. De modo que, se eu tiver de escolher entre as penas da vida e os prazeres da morte, sem dúvida escolho as primeiras...justamente porque gosto de desfrutar e não de perecer! Não quero prazeres que me permitam fugir da vida, e sim aqueles que a tornem mais intensamente grata.

 

 SAVATER, Fernando. Ética para meu filho, 2º ed, São Paulo: Planeta, 2012


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Ética para meu filho, Fernando Savater

"(...) Se eu não pensar no que faço mais de uma vez, talvez me baste a resposta de que estou agindo assim "porque é costume". Mas por que diabos tenho de fazer sempre o que se costuma fazer (ou o que costumo fazer)? Nem que eu fosse escravo dos que me cercam, por mais que sejam meus amigos, ou do que fiz ontem, anteontem ou no mês passado! Se vivo cercado de gente que tem o costume de discriminar os negros, e se não acho isso certo de jeito algum, por que devo imitá-los? Se me acostumei a pedir dinheiro emprestado e não devolver, mas cada vez tenho mais vergonha de fazê-lo, por que não mudar de comportamento e começar, a partir de agora, a ser mais correto? Por acaso um costume não pode ser pouco conveniente para mim, por mais acostumado que eu esteja? Quando me interrogo pela segunda vez sobre meus caprichos, o resultado é parecido. Muitas vezes tenho vontade de fazer coisas que logo se voltam contra mim, das quais depois me arrependo. Em assuntos sem importância o capricho pode ser aceitável, mas, quando se trata de coisas mais sérias, deixar-me levar por ele, sem refletir sobre se é um capricho conveniente ou inconveniente, pode ser muito pouco aconselhável, até perigoso: o capricho de sempre atravessar os semáforos no vermelho pode ser divertido uma ou duas vezes, mas será que vou conseguir viver muito se continuar a fazê-lo dia após dia?

(...) A palavra "moral" tem a ver, etimologicamente, com os costumes, pois é exatamente isso que significa o termo latino mores e também com as ordens, pois a maioria dos preceitos morais soam como "você deve fazer isso" ou "nem pense em fazer aquilo". No entanto, há ordens e costumes - como já vimos - que podem ser maus, ou seja, imorais, por mais ordenados e "acostumados" que se apresentem. Se quisermos nos aprofundar de verdade na moral, se quisermos aprender seriamente a empregar bem a liberdade que temos (e é justamente nesse aprendizado que consiste a "moral" ou "ética" de estamos falando aqui), é melhor deixarmos de lado ordens, costumes e caprichos. A primeira coisa que é preciso deixar claro é que a ética de um homem livre nada tem a ver com os castigos nem com os prêmios distribuídos pela autoridade, seja ela autoridade humana ou divina - neste caso, tanto faz. Quem não faz mais do que fugir do castigo e buscar a recompensa conferida por outros, segundo normas estabelecidas por eles, não é melhor do que um pobre escravo. (...) Aqui vai um esclarecimento terminológico. Embora eu vá utilizar as palavras "moral" e "ética" como equivalentes, de um ponto de vista técnico (desculpe-me estar mais professoral do que de hábito) elas não têm significado idêntico. "Moral" é o conjunto de comportamentos e normas que você, eu e algumas das pessoas que nos cercam costumamos aceitar com válidos; "ética" é a reflexão sobre por que os consideramos válidos e a comparação com outras "morais" de pessoas diferentes. Mas, enfim, aqui continuarei utilizando as duas palavras indistintamente, sempre como arte de viver. A academia que me perdoe...

Lembre-se de que as palavras "bom" e "mau" não se aplicam apenas a comportamentos morais, nem apenas a pessoas. (...)

Para alguns, ser bom significará ser resignado e paciente, mas outros considerarão boa a pessoa empreendedora, original, que não se acovarda na hora de dizer o que pensa, mesmo que possa incomodar alguém. Em países como a África do Sul, por exemplo alguns considerarão bom o negro que não reclama e se conforma com o aparthaid, ao passo que outros só chamarão assim os que seguem Nelson Mandela. Sabe por que não é fácil dizer quando um ser humano é "bom" e quando não é? Porque não sabemos para que servem os seres humanos. (...)

É possível ser um bom homem (e uma boa mulher, é claro) de muitas maneiras, e as opiniões que julgam os comportamentos geralmente variam conforme as circunstâncias. Por isso, às vezes, dizemos que Fulano ou Sicrana são bons "a seu modo". Admitimos assim que há muitas formas de sê-lo e que a questão depende do âmbito em que cada um se move. Como você vê, não é fácil determinar de fora quem é bom e quem é mau, quem faz o que convém e quem não faz. Seria preciso estudar não apenas todas as circunstâncias de cada caso, mas até as intenções que movem cada um. Pois poderia acontecer que alguém pretendesse fazer alguma coisa má e, por acaso, acabasse obtendo um resultado aparentemente bom. E não chamaríamos "bom" alguém que fizesse algo bom por mero acaso, não é mesmo? Também é verdade o contrário: com a melhor intenção do mundo alguém poderia provocar um desastre e ser considerado um monstro, sem ter culpa. Mas acho que por esse caminho tiraremos pouca coisa a limpo, sinto muito."

SAVATER, Fernando. Ética para meu filho, 2º ed, São Paulo: Planeta, 2012. 

Igualdade entre homens e mulheres (1622) - Marie de Gournay

  “A maioria dos que defendem a causa das mulheres, lutando contra essa orgulhosa preferência que os homens se atribuem, lhes dá o troco com...