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segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Ponha-se no lugar do outro (Fernando Savater - Ética para meu filho).

Robinson Crusoé passeia por uma das praias da ilha à qual foi confinado por uma inoportuna tempestade seguida de naufrágio. Leva seu papagaio ao ombro e protege-se do sol graças à sombrinha fabricada com folhas de palmeiras, que o faz sentir orgulho, com razão, de sua habilidade. Ele acha que, em vista das circunstâncias, até que não se arranjou mal. Agora tem um refúgio para se proteger contra as inclemências do tempo e dos ataque dos animais selvagens, sabe onde conseguir alimento e bebida, tem roupas para se abrigar - que ele mesmo fez com elementos naturais da ilha -, os dóceis serviços de um pequeno rebanho de cabras, etc. Enfim, acha que sabe arranjar-se para levar mais ou menos sua vida boa de náufrago solitário. Robinson continua passeando, e está tão contente consigo mesmo que por um momento parece não sentir falta de nada. De repente, detém-se com um sobressalto. Ali, na areia, desenha-se uma marca que irá revolucionar toda a sua pacífica existência: uma pegada humana. 

De quem será? Amigo ou inimigo? Talvez um inimigo que possa se tornar amigo? Homem ou mulher? Como se entenderá com ele, ou ela? Como irá tratá-lo? Robinson já está acostumado a se fazer perguntas desde que chegou à ilha e a resolver os problemas do modo mais engenhoso possível: o que vou comer? Onde vou me abrigar? Como posso proteger-me do sol? Mas agora a situação não é a mesma, pois não se trata de lidar com acontecimentos naturais, como a fome e a chuva, nem com animais selvagens, mas com um outro ser humano, ou seja, com outros Robinsons e Robinsonas. Diante dos elementos ou dos animais, Robinson pôde comportar-se sem atender a nada além de sua necessidade de sobrevivência. Tratava-se de ver se podia com eles ou se eles podiam com ele, sem mais complicações. Mas, diante de seres humanos, a coisa já não é tão simples. Ele deve sobreviver, sem dúvida, mas não de qualquer modo. Se Robinson transformou-se num animal como os outros que perambulam pela selva, por causa de sua solidão e sua desventura, sua única preocupação será saber se o desconhecido dono da pegada é um inimigo a ser eliminado ou uma presa a ser devorada. Mas, se quer continuar sendo homem...Então já não estará lidando com uma presa ou um simples inimigo, mas com um rival ou um possível companheiro; de todo modo, com um semelhante

Enquanto está só, Robinson enfrenta questões técnicas, mecânicas, higiênicas, até científicas, se é que você me entende. A questão é salvar a vida num meio hostil e desconhecido. Mas quando ele encontra a pegada de Sexta-Feira na areia da praia, começam seus problemas éticos. Já não se trata apenas de sobreviver, como um animal selvagem ou uma alcachofra, perdido na natureza; agora precisa começar a viver humanamente, ou seja, com outros homens, mas entre homens. O que faz a vida ser "humana" é o fato de transcorrer em companhia de seres humanos, falando com eles, pactuando e mentindo, sendo respeitado ou traído, amando, fazendo projetos e recordando o passado, desafiando-se organizando juntos as coisas comuns, jogando, trocando símbolos... A ética não se ocupa em saber como se alimentar melhor, qual a maneira mais recomendável de se proteger do frio ou que fazer para atravessar um rio sem se afogar, todas questões muito importantes, sem dúvida, para sobrevivência em determinadas circunstâncias; o que interessa à ética, o que constitui sua especialidade, é como viver bem a vida humana, a vida que transcorre entre humanos. Se não soubermos como nos arranjar para sobreviver em meio aos perigos naturais, perderemos a vida, o que sem dúvida será um grande dano; mas, se não tivermos nem ideia de ética, perderemos ou prejudicaremos o humano de nossa vida, o que, francamente, também não tem graça nenhuma. 

Eu disse antes que a pegada na areia anunciou a Robinson a proximidade comprometedora de um semelhante. Mas, vejamos: até que ponto Sexta-Feira era semelhante a Robinson? De um lado, um europeu do século XVII, possuidor dos conhecimentos científicos mais avançados de sua época, educado na religião cristã, familiarizado com os mitos homéricos e com a imprensa; de outro, um selvagem canibal dos mares do Sul, em outra cultura além da tradição oral de sua tribo, crente numa religião politeísta e ignorando a existência das grandes cidades da época, como Londres e Amsterdã. Neles, tudo era diferente: cor da pele, gostos culinários, entretenimentos...Certamente nem sonhos noturnos tinham algo em comum. No entanto, apesar de tantas diferenças, também havia entre eles características fundamentais parecidas, semelhanças essenciais que Robinson não compartilhava com nenhum animal, com nenhuma árvore ou manancial da ilha. Para começar, ambos falavam, embora suas línguas fossem muito diferentes. O mundo, para eles, era feito de símbolos e de relações entre símbolos, e não de simples coisas sem nome. Tanto Robinson como Sexta-Feira eram capazes de atribuir valor aos comportamentos, de saber que podemos fazer algumas coisas que são "boas" e outras que, ao contrário, são "más". À primeira vista, o que os dois consideravam "bom" e "mau" também não era igual, pois seus valores concretos provinham de culturas muito distantes: sem buscar muito longe, o canibalismo era um costume aceito por Sexta-Feira, ao passo que despertava o mais profundo horror em Robinson - assim como em você, suponho, por mais comilão que você seja. Apesar disso, os dois possuíam critérios destinados a justificar o que é aceitável e o que é aversivo. Embora partissem de posições muito distantes numa discussão, podiam chegar a discutir e compreender o que estavam discutindo. Já é bem mais do que em geral se faz com um tubarão ou com uma avalanche de rochas, não é mesmo?

(...) Essa própria semelhança quanto à inteligência, a capacidade de calcular e projetar, às paixões e aos medos, isso que torna os homens tão perigosos para mim, quando querem sê-lo, torna-os também extremamente úteis. Quando um ser humano combina bem comigo, nada poderá combinar melhor. Vejamos, o que você conhece que seja melhor que ser amado? Quando alguém quer dinheiro, ou poder, ou prestígio...por acaso não deseja essas riquezas para poder comprar a metado do que recebemos de graça quando somos amados? E quem pode me amar de verdade senão um outro ser como eu, que me ame como ser hukano...e apesar disso? Nenhum bicho, por mais carinhoso que seja, pode me dar tanto quanto outro ser humano, mesmo que seja um ser humano antipático. É certo que, em todo cado, devo tratar os homens com cuidado. Mas esse "cuidado" não pode consistir antes de tudo em suspeita ou prevenção, mas na consideração que se tem ao lidar com as coisas frágeis, as coisas mais frágeis de todas...por não serem simples coisas. Como o vínculo de respeito e amizade para com os outros humanos é o mais precioso do mundo para mim, que também sou humano, quando me vejo diante deles deve ter o maior interesse em resguardá-los e em até mimá-los, se é que você me entende. Nem na hora de salvar a pele é aconselhável que eu esqueça completamente essa prioridade.


(...) em que consiste tratar as pessoas como pessoas, ou seja, humanamente? Resposta: consiste em tentar colocar-se em seu lugar. Entender alguém como semelhante implica sobretudo a possibilidade de compreendê-lo a partir de dentro, de adotar por um momento seu próprio ponto de vista. É algo que só possso pretender de maneira muito romântica e muito duvidosa com um morcego ou um gerânimo, mas que, em compensação, impõem-se com os seres capazes, como eu, de manejar símbolos. Afinal, sempre que falamos com alguém, o que fazemos é estabelecer um terreno no qula quem agora é "eu" sabe que se transformará em "você", e vice-versa. Se não admitíssemos que existe algo fundamentalmente igual entre nós (a possibilidade de ser para o outro o que o outro é para mim) não poderíamos trocar nem um palavra. Onde há troca também há reconhecimento de que de certo modo pertencemos a quem está diante de nós e quem está diante de nós nos pertence... E isso mesmo que eu seja jovem e o outor velho, que eu seja home e outro mulher, mesmo que eu seja branco e o outro negro, que eu seja bobo e o outro esperto, mesmo que eu esteja são e o outro doente, que eu seja rico e o outro pobre. "Sou humano" - disse um antigo poeta latino - "e nada do que é humano pode parecer0me alheio". Ou seja, ter consciência do que é humano consiste em dar-me conta de que, apesar de todas as diferenças muito reais entre os indivíduos, também estou de certo modo dentro de cada um dos meus semelhantes. Para começar, como palavra...

(...) Em suma, pôr-se no lugar do outro é levá-lo a sério, considerá-lo tão plenamente real como você mesmo.

(...) Não estou dizendo que haja algum mal em você ter seus próprios interesses, nem que você sempre deve renunciar a eles para dar prioridade aos de seu vizinho. Os seus interesses, decerto, são tão respeitáveis quano os dele, e o resto é conversa. Mas atente para a própria palavra "interesse": ela vem do latim inter esse, o que está entre vários, o que coloca vários em relação. Ao falar em "relativizar" seu interesse, quero dizer que esse interesse não é algo exclusivamente seu, com ose você visse sozinho num mundo de fantasmas, mas é algo que colcoa você em contato com outras realidades, tão "de verdade" quanto você mesmo. De modo que todos os interesses que você possa ter são muito relativos (conforme outros interesses, conforme as circunstâncias, conforme leis e costumes da sociedade em que você vive), com exceção de um interesse, o único interesse absoluto: o interesse de ser humano entre os humanos, de dar e receber o tratamento de humanidade sem o qual não pode haver "vida boa".

                                           SAVATER, Fernando. Ética para meu filho, 2º ed, São Paulo: Planeta, 2012.


 


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Aristóteles e a política

O livro Política de Aristóteles traz uma passagem muito famosa na qual o filósofo afirma que o "homem é por natureza um animal político." Segundo Aristóteles, a evidência de que o homem seria um animal político, mais do que as abelhas e os outros animais gregários (que vivem juntos) é o fato de só o homem possuir a palavra [logos /linguagem]

"Como dizemos frequentemente, a natureza não faz nada em vão; ora, o homem é o único entre os animais a ter linguagem (logos). O simples som é uma indicação do prazer ou da dor, estando portanto em outros animais, pois a natureza destes consiste em sentir o prazer e a dor e em expressá-los. Mas a linguagem tem como objetivo a manifestação do vantajoso e do desvantajoso, e portanto do justo e do injusto. Trata-se de uma característica do homem ser ele o único que tem o senso do bom e do mau, do justo e do injusto, bem como de outras noções deste tipo. É a associação dos que têm em comum essas noções que constitui a família e o Estado." ARISTÓTELES, Política.

Segundo Aristóteles, faria parte da nossa própria natureza nos juntarmos a outros iguais a nós para compartilhar as dores e alegrias da vida. Primeiro nos reuniríamos em famílias; várias famílias reunidas formam uma aldeia; várias aldeias crescendo num mesmo espaço formam uma pólis. A pólis seria assim não uma "invenção" humana, mas a realização da própria natureza dos seres humanos. 

No entanto, como observa Silvio Gallo, "ainda que uma cidade se origine de uma reunião natural de famílias, não podemos ver essas comunidades humanas como uma simples continuidade." Pois Aristóteles afirmava a existência de duas esferas, a privada - relativa à família e à casa de cada um - e a pública - relativa à comunidade política, à cidade. Sendo assim, enquanto a economia (oicos - casa + nomos -leis, regras) é a ciência da gestão casa, a política ( politika - as coisas relativas à pólis) é ciência da gestão da cidade. 

Aristóteles identifica diferente tipos de poder próprios de cada uma das esferas acima identificadas. "na esfera privada, doméstica, um pai de família exerce quatro tipos de poder: um poder econômico, que é a faculdade de organizar e gerir sua própria casa; um poder paternal sobre os filhos; um poder marital sobre a mulher; e um poder despótico sobre quem é por ele escravizado." (GALLO, 2017).  Já na esfera pública, no contexto da democracia ateniense, a política era uma atividade que acontecia entre iguais (aqueles que eram considerados cidadãos: homens livres, filhos de pais atenienses, em dia com o serviço militar). 

De acordo com Gallo, "ainda que seja resultado de um processo natural, a comunidade política tem uma finalidade principal: o "bem viver juntos". E o bem viver, para Aristóteles, consiste na felicidade - "felicidade privada", que diz respeito à vida de cada um, e "felicidade pública", que está relacionada com a vida pública na sociedade." Uma cidade feliz é aquela na qual os cidadão têm a possibilidade de se dedicar à atividades que garantem aquelas felicidades, a saber, a contemplação e a dedicação ao pensamento (felicidade privada) e participação na política (felicidade pública).

Assim como seu mestre Platão, Aristóteles não tinha simpatia pela democracia. No entanto, Aristóteles também não se convenceu de que a sofocracia de seu mestre fosse a melhor opção. Depois de identificar as seis formas de governo recorrentes, a partir dos critérios de número e de valor: Monarquia, Aristocracia, Politia (formas boas de governo) / Tirania, Oligarquia e Democracia (formas corrompidas de governo), Aristóteles aposta num governo misto como sendo a melhor forma de garantir estabilidade à cidade. Uma mistura entre democracia e oligarquia - na qual nem os ricos (oligarquia) nem os pobres (democracia) estariam no poder, mas uma classe intermediária. 

A influência de Aristóteles no pensamento político ocidental é muito grande. As seis formas de governo por ele tipificadas foi referência para boa parte dos filósofos que vieram depois dele. 

Material consultado: GALLO, Silvio, Filosofia: experiência do pensamento, São Paulo: Scipione, 2017.


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Os prazeres e a vida feliz em Epicuro

 “(...) é por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.

Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres quando deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem.

(...) Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita.

Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meio para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte.

 Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma.”

 

Trechos selecionados da Carta sobre a Felicidade, de Epicuro.

 

 

Sobre amizade e felicidade em Aristóteles

“[a amizade é] sumamente necessária a vida. Porque sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que possuísse todos os outros bens. E acredita-se, mesmo, que os ricos e aqueles que exercem autoridade e poder são os que mais precisam de amigos; pois de que serve tanta prosperidade sem um ensejo de fazer bem, se este se faz principalmente e sob a forma mais louvável aos amigos? Ou como se pode manter e salvaguardar a prosperidade sem amigos? Quanto maior é ela, mais perigos corre.

Por outro lado, na pobreza e nos demais infortúnios os homens pensam que os amigos são o seu único refúgio. A amizade também ajuda os jovens afastar-se do erro, e aos mais velhos, atendendo-lhes às necessidades e suprindo as atividades que declinam por efeito dos anos. Aos que estão no vigor da idade ela estimula à prática de nobres ações, pois na companhia de amigos – dois que andam juntos – os homens são mais capazes tanto de agir como de pensar.

(...) Não é ela, contudo, apenas necessária, mas também nobre, porquanto louvamos os que amam os seus amigos e considera-se uma bela coisa ter muitos deles. E pensamos, por outro lado, que as mesmas pessoas são homens bons e amigos.

Ora, certos pontos atinentes à amizade são matéria de debate. Alguns a definem como uma espécie de afinidade e dizem que as pessoas semelhantes são amigas, donde os aforismos “igual com igual”, “cada ovelha com sua parelha”, etc.; outros, pelo contrário, dizem que “dois do mesmo ofício nunca estão de acordo”. E investigam esta questão buscando causas mais profundas e mais físicas, dizendo Eurípedes que “a terra resseca ama a chuva, e o majestoso céu, quando prenhe de chuva, adora cair sobre a terra”, e Heráclito: “o que se opõe é que ajuda” e “de notas diferentes nasce a melodia mais bela”, e ainda: “todas as coisas são geradas pela luta”; ao passo que Empédocles, juntamente com outros, exprime a opinião contrária de que o semelhante busca o semelhante.

(...) Existem três espécies de amizade, como dissemos no começo de nossa investigação, e com respeito a cada uma delas alguns são amigos em termos de igualdade e outros em virtude de uma superioridade (pois não só homens igualmente bons podem tornar-se amigos, mas um homem melhor pode fazer amizade com outro pior, e também nas amizades eu se baseiam no prazer ou na utilidade os amigos podem ser iguais ou desiguais quanto aos benefícios que conferem).

(...) Também se discute sobre se o homem feliz necessita ou não de amigos. Diz-se que os que são sumamente felizes e autossuficientes não precisam deles, pois tais pessoas possuem tudo que é bom e, autossuficientes como são, dispensam o resto; enquanto um amigo, que é um outro “eu”, provê o que um homem não pode conseguir pelos seus próprios esforços. Daí as palavras: “quando a fortuna nos sorri, para que precisamos de amigos?”

Mas parece estranho, quando se atribui tudo o que é bom ao homem feliz, recusar-lhe amigos, que são considerados os maiores bens exteriores. E, se é mais próprio de um amigo fazer bem a outrem do que ser beneficiado, e se dispensar benefícios é característico do homem bom e da virtude, e é mais nobre fazer bem a amigos do que a estranhos, o homem bom necessitará de pessoas a quem possa fazer bem. E por esta razão se pergunta se necessitamos mais de amigos na prosperidade ou na adversidade, subentendendo que não só um homem na adversidade precisa de quem lhe confira benefícios, mas também os prósperos necessitam ter a quem fazer bem.

Não menos estranho seria fazer do homem sumamente feliz um solitário, pois ninguém escolheria a posse do mundo inteiro sob a condição de viver só, já que o homem é um ser político e está em sua natureza o viver em sociedade.

(...) Em conclusão, a presença de amigos parece ser desejável em todas as circunstâncias. 

Trechos selecionados de Ética a Nicômaco, de Aristóteles.

 

 

Igualdade entre homens e mulheres (1622) - Marie de Gournay

  “A maioria dos que defendem a causa das mulheres, lutando contra essa orgulhosa preferência que os homens se atribuem, lhes dá o troco com...