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quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Variações sobre o prazer (Rubem Alves)

 “Afirmar a bondade do prazer é escandaloso no Ocidente.” A espiritualidade ocidental foi construída sobre a negação do prazer. As feridas e lacerações que a espiritualidade católica elegeu como objetos de adoração são expressões plásticas desse fato. E o ascetismo e disciplina de trabalho, virtudes supremas do protestantismo, são a sua manifestação racional e moral.

(...) Mas eu acredito que vivemos para ter prazer. Bachelard era mais ousado do que eu e não se envergonhava de afirmar: “O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso”. (...) O destino da razão é servo do prazer e da alegria. Creio na função educativa e intelectual do prazer. Uma inteligência feliz é uma inteligência... mais inteligente...

 (...)

Por muito tempo, influenciado pela psicanálise, usei a palavra “prazer” para me referir ao impulso fundamental que movimenta o corpo. Hoje a palavra prazer já não me satisfaz. O corpo não se contenta com o prazer. Uma das muitas amantes de Tomás dizia: “Eu não quero prazer. Eu quero é alegria!”. A experiência do prazer, tão boa, sempre nos coloca diante de um vazio. A teologia de santo Agostinho se constrói sobre esse vazio que se segue ao prazer. Depois de esgotado o prazer, existe, na alma, a nostalgia por algo indefinível. Que indefinível é esse que, se encontrado, nos traria a alegria? Estou pronto a concordar com o santo: um indefinível que, se encontrado, me traria alegria, eu o adoraria como deus, a ele entregaria a minha vida.
  Pus-me então a pensar sobre a diferença entre prazer e alegria – ambos muito bons. E estas foram as conclusões a que cheguei.
 
Sobre o prazer:
(1) O prazer só acontece se o corpo tiver a posse do seu objeto. O prazer do sorvete só existe se houver um sorvete a ser lambido. O prazer do suco de pitanga só existe se houver suco de pitanga para ser bebido. O prazer do beijo só existe se houver a pessoa amada a ser beijada.
(2) O prazer se farta logo. Quantos sorvetes sou capaz de tomar antes que ele se transforme de objeto de prazer em causa de sofrimento? Quantos copos de suco de pitanga sou capaz de tomar antes que o corpo diga: “Não aguento mais!?”. Quantos beijos se pode dar na pessoa amada antes de enjoar? O prazer tem vida curta. O evangelho do prazer reza: “Bem-aventurados os que têm fome, porque serão fartos”.
Sobre a alegria:
(1) A alegria não precisa da posse do objeto desejado para existir. Lembro-me do rosto de um amigo – ele já morreu –, mas esta simples memória me traz alegria, junto com uma pitada de tristeza. Sentimos alegria lendo uma obra de ficção, um objeto que nunca existiu pode nos dar alegria, como é o romance entre Fiorentino Ariza e Firmina Daza120 ou o filme A festa de Babette. Paul Valéry: “Que somos nós sem o socorro das coisas que não existem?”. Que seres estranhos nós somos, capazes de nos alegrar comendo frutos inexistentes!
(2)  A alegria nunca se farta. A alegria pede mais alegria. Alegria é fome insaciável. Da alegria nunca se diz: “Estou satisfeito!”, “Chega!”. O evangelho da alegria é diferente do evangelho do prazer: “Bem-aventurados os que têm fome, porque terão mais fome”.
 
Mas, vez por outra, a alegria e o prazer acontecem juntos. Quando isso acontece, o corpo experimenta uma efêmera epifania do Paraíso: o divino se faz carne...
 
Alves, Rubem, Variações sobre o Prazer, 6ª edição, São Paulo: Planeta, 2011.

Muito Prazer (Fernando Savater)

 (...) Quando as pessoas falam em "moral", e sobretudo em "imoralidade", 80% das vezes - e com certeza estou subestimando esse número - o sermão trata de alguma coisa referente ao sexo. Tanto que alguns acham que a moral se dedica antes de tudo a julgar o que as pessoas fazem com seus genitais. O absurdo não poderia ser maior, e suponho que, por menor atenção que tenha dado ao que acabo de dizer até agora, você não concorda com isso. No sexo, em si, não há nada mais "imoral" do que na alimentação ou nos passeios pelo campo; claro que alguém pode comportar-se imoralmente no sexo (utilizando-o para prejudicar outra pessoa, por exemplo), assim como há quem coma a ração do vizinho ou aproveite seus passeios para planejar atentados terroristas. Como a relação sexual pode chegar a estabelecer vínculos muito poderosos e complicações afetivas muito delicadas entre as pessoas, é lógico que se levem em conta especialmente as considerações devidas aos semelhantes nesses casos. Quanto ao mais, no entanto, quero dizer simplesmente que naquilo que dá prazer a dois e não prejudica a nenhum não há nada de mau. O que de fato é "mau" é as pessoas acharem que haja algo de mau em ter prazer...

(...) a experiência sexual não pode limitar-se simplesmente à função procriadora. Nos seres humanos, os dispositivos naturais para garantir a perpetuação da espécie sempre têm outras dimensões que a biologia não parece ter previsto. A eles acrescentam-se símbolos e refinamentos, invenções preciosas dessa liberdade sem a qual os homens não seriam homens. É paradoxal aqueles que veem algo de "mau" ou pelo menos de "ilícito" no sexo dizerem que se dedicar a ele com entusiasmo excessivo animaliza o homem. A verdade é que são justamente os animais que só utilizam o sexo para procriar, assim como só os animais utilizam a comida para se alimentar ou o exercício físico para conservar a saúde; os seres humanos, por outro lado, inventaram o erotismo, a gastronomia e o atletismo. (...) Quanto mais o homem separa o sexo da simples procriação, menos animal e mais humano ele se torna. Claro, isso tem consequências boa e más, como sempre acontece quando a liberdade está em jogo...

O que se esconde em toda essa obsessão sobre a "imoralidade" sexual não é nem mais nem menos do que um dos mais velhos temores sociais do homem: o medo do prazer.  O prazer sexual é tão cercado de tantas suspeitas e cautelas justamente por se destacar entre os mais intensos e vivos que se podem sentir. Por que o prazer assusta? Suponho que seja por nos agradar demais. (...) O prazer às vezes nos distrai mais do que convém, o que pode acabar sendo falta. Por isso os prazeres sempre foram objeto de tabus e restrições, cuidadosamente racionados, permitidos apenas em certas datas, etc.: trata-se de precauções sociais (que às vezes perduram mesmo quando já não são necessárias) para que ninguém se distraia demais do perigo de viver. 

(...) "Devemos segurar com unhas e dentes o uso dos prazeres da vida, que os anos vão nos tirando um depois do outro" (Michel de Montaigne). Quero destacar duas coisas dessa frase de Montaigne. A primeira aparece no final da recomendação, e diz que os anos vão tirando incessantemente possibilidades de gozo, e que por isso não é prudente esperar demais para resolver desfrutar. Se esperamos muito para desfrutar, acabaremos deixando de fazê-lo... É preciso saber entregar-se a saborear o presente, o que os romanos (e o profe-poeta meio enfadonho de A sociedade dos poetas mortos) resumiam no ditado carpe diem. Isso não quer dizer que você deve buscar hoje todos os prazeres, mas que deve buscar todos os prazeres de hoje. (...) Isso me leva ao princípio da frase de Montaigne que mencionei antes, quando fala em segurar com unhas e dentes "o uso dos prazeres da vida". O bom é usar os prazeres, ou seja, sempre ter certo controle sobre eles, não permitindo que se voltem contra o resto do que constitui sua existência pessoal. 

(...) O prazer é muito agradável, mas tem uma tendência prejudicial a ser exclusivo: se você se entregar a ele com demasiada generosidade, ele será capaz de deixá-lo sem nada, sob o pretexto de fazê-lo viver bem. Usar os prazeres, como diz Montaigne, é não permitir que qualquer um deles elimine a possibilidade de todos os outros ou esconda completamente o contexto da vida, nada simples, em que cada um tem sua ocasião. A diferença entre o "uso" e o "abuso" é exatamente essa: quando usamos um prazer, enriquecemos nossa vida e gostamos cada vez mais, não só do prazer, mas da própria vida; o sinal de que estamos abusando é notar que o prazer vai nos empobrecendo a vida e que já não nos interessamos por ela, mas apenas por esse prazer particular. 

(...) A ética consiste em apostar em que a vida vale a pena, pois a´te as penas da vida valem a pena. E valem a pena porque é através delas que podemos alcançar os prazeres da vida, sempre contínuos - é o destino - às dores. De modo que, se eu tiver de escolher entre as penas da vida e os prazeres da morte, sem dúvida escolho as primeiras...justamente porque gosto de desfrutar e não de perecer! Não quero prazeres que me permitam fugir da vida, e sim aqueles que a tornem mais intensamente grata.

 

 SAVATER, Fernando. Ética para meu filho, 2º ed, São Paulo: Planeta, 2012


Sentidos de "moral"

Conhece-se a ambiguidade [da] palavra [moral]. Por "moral" entende-se (i) um conjunto de valores e regras de ação propostas aos indivíduos e aos grupos por intermédio de aparelhos prescritivos diversos, como podem ser a família, as instituições educativas, as Igrejas, etc. Acontece de essas regras e valores serem bem explicitamente formulados numa doutrina coerente e num ensinamento explícito. Mas acontece também de elas serem transmitidas de maneira difusa e, longe de formarem um conjunto sistemático, constituírem um jogo complexo de elementos que se compensam, se corrigem, se anulam em certos pontos, permitindo, assim, compromissos ou escapatórias. Com essas reservas pode-se chamar "código moral" esse conjunto prescritivo. Porém, por "moral" entende-se igualmente (ii) o comportamento real dos indivíduos em relação às regras e aos valores que lhes são propostos: designa-se, assim, a maneira pela qual eles se submetem mais ou menos completamente ao um princípio de conduta; pela qual eles obedecem ou resistem a uma interdição ou a uma prescrição; pela qual eles respeitam ou negligenciam um conjunto de valores; (...)

Em suma, para ser dita "moral" uma ação não deve se reduzir a um ato ou a uma série de atos conformes a uma regra, lei ou valor. É verdade que toda ação moral comporta uma relação ao real em que se efetua, e uma relação ao código a que se refere; mas ela implica também uma certa relação a si; essa relação não é simplesmente "consciência de si", mas constituição de si enquanto "sujeito moral", na qual o indivíduo circunscreve a parte dele mesmo que constitui o objeto dessa prática moral, define sua posição em relação ao preceito que respeita, estabelece para si um certo modo de ser que valerá como realização moral dele mesmo;e, para tal, age sobre si mesmo, procura conhecer-se, controla-se, põe à prova, aperfeiçoa-se, transforma-se. 

Foucault, M, O uso dos prazeres, in Textos básicos de ética: de Platão a Foucault, de Danilo Marcondes.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Ponha-se no lugar do outro (Fernando Savater - Ética para meu filho).

Robinson Crusoé passeia por uma das praias da ilha à qual foi confinado por uma inoportuna tempestade seguida de naufrágio. Leva seu papagaio ao ombro e protege-se do sol graças à sombrinha fabricada com folhas de palmeiras, que o faz sentir orgulho, com razão, de sua habilidade. Ele acha que, em vista das circunstâncias, até que não se arranjou mal. Agora tem um refúgio para se proteger contra as inclemências do tempo e dos ataque dos animais selvagens, sabe onde conseguir alimento e bebida, tem roupas para se abrigar - que ele mesmo fez com elementos naturais da ilha -, os dóceis serviços de um pequeno rebanho de cabras, etc. Enfim, acha que sabe arranjar-se para levar mais ou menos sua vida boa de náufrago solitário. Robinson continua passeando, e está tão contente consigo mesmo que por um momento parece não sentir falta de nada. De repente, detém-se com um sobressalto. Ali, na areia, desenha-se uma marca que irá revolucionar toda a sua pacífica existência: uma pegada humana. 

De quem será? Amigo ou inimigo? Talvez um inimigo que possa se tornar amigo? Homem ou mulher? Como se entenderá com ele, ou ela? Como irá tratá-lo? Robinson já está acostumado a se fazer perguntas desde que chegou à ilha e a resolver os problemas do modo mais engenhoso possível: o que vou comer? Onde vou me abrigar? Como posso proteger-me do sol? Mas agora a situação não é a mesma, pois não se trata de lidar com acontecimentos naturais, como a fome e a chuva, nem com animais selvagens, mas com um outro ser humano, ou seja, com outros Robinsons e Robinsonas. Diante dos elementos ou dos animais, Robinson pôde comportar-se sem atender a nada além de sua necessidade de sobrevivência. Tratava-se de ver se podia com eles ou se eles podiam com ele, sem mais complicações. Mas, diante de seres humanos, a coisa já não é tão simples. Ele deve sobreviver, sem dúvida, mas não de qualquer modo. Se Robinson transformou-se num animal como os outros que perambulam pela selva, por causa de sua solidão e sua desventura, sua única preocupação será saber se o desconhecido dono da pegada é um inimigo a ser eliminado ou uma presa a ser devorada. Mas, se quer continuar sendo homem...Então já não estará lidando com uma presa ou um simples inimigo, mas com um rival ou um possível companheiro; de todo modo, com um semelhante

Enquanto está só, Robinson enfrenta questões técnicas, mecânicas, higiênicas, até científicas, se é que você me entende. A questão é salvar a vida num meio hostil e desconhecido. Mas quando ele encontra a pegada de Sexta-Feira na areia da praia, começam seus problemas éticos. Já não se trata apenas de sobreviver, como um animal selvagem ou uma alcachofra, perdido na natureza; agora precisa começar a viver humanamente, ou seja, com outros homens, mas entre homens. O que faz a vida ser "humana" é o fato de transcorrer em companhia de seres humanos, falando com eles, pactuando e mentindo, sendo respeitado ou traído, amando, fazendo projetos e recordando o passado, desafiando-se organizando juntos as coisas comuns, jogando, trocando símbolos... A ética não se ocupa em saber como se alimentar melhor, qual a maneira mais recomendável de se proteger do frio ou que fazer para atravessar um rio sem se afogar, todas questões muito importantes, sem dúvida, para sobrevivência em determinadas circunstâncias; o que interessa à ética, o que constitui sua especialidade, é como viver bem a vida humana, a vida que transcorre entre humanos. Se não soubermos como nos arranjar para sobreviver em meio aos perigos naturais, perderemos a vida, o que sem dúvida será um grande dano; mas, se não tivermos nem ideia de ética, perderemos ou prejudicaremos o humano de nossa vida, o que, francamente, também não tem graça nenhuma. 

Eu disse antes que a pegada na areia anunciou a Robinson a proximidade comprometedora de um semelhante. Mas, vejamos: até que ponto Sexta-Feira era semelhante a Robinson? De um lado, um europeu do século XVII, possuidor dos conhecimentos científicos mais avançados de sua época, educado na religião cristã, familiarizado com os mitos homéricos e com a imprensa; de outro, um selvagem canibal dos mares do Sul, em outra cultura além da tradição oral de sua tribo, crente numa religião politeísta e ignorando a existência das grandes cidades da época, como Londres e Amsterdã. Neles, tudo era diferente: cor da pele, gostos culinários, entretenimentos...Certamente nem sonhos noturnos tinham algo em comum. No entanto, apesar de tantas diferenças, também havia entre eles características fundamentais parecidas, semelhanças essenciais que Robinson não compartilhava com nenhum animal, com nenhuma árvore ou manancial da ilha. Para começar, ambos falavam, embora suas línguas fossem muito diferentes. O mundo, para eles, era feito de símbolos e de relações entre símbolos, e não de simples coisas sem nome. Tanto Robinson como Sexta-Feira eram capazes de atribuir valor aos comportamentos, de saber que podemos fazer algumas coisas que são "boas" e outras que, ao contrário, são "más". À primeira vista, o que os dois consideravam "bom" e "mau" também não era igual, pois seus valores concretos provinham de culturas muito distantes: sem buscar muito longe, o canibalismo era um costume aceito por Sexta-Feira, ao passo que despertava o mais profundo horror em Robinson - assim como em você, suponho, por mais comilão que você seja. Apesar disso, os dois possuíam critérios destinados a justificar o que é aceitável e o que é aversivo. Embora partissem de posições muito distantes numa discussão, podiam chegar a discutir e compreender o que estavam discutindo. Já é bem mais do que em geral se faz com um tubarão ou com uma avalanche de rochas, não é mesmo?

(...) Essa própria semelhança quanto à inteligência, a capacidade de calcular e projetar, às paixões e aos medos, isso que torna os homens tão perigosos para mim, quando querem sê-lo, torna-os também extremamente úteis. Quando um ser humano combina bem comigo, nada poderá combinar melhor. Vejamos, o que você conhece que seja melhor que ser amado? Quando alguém quer dinheiro, ou poder, ou prestígio...por acaso não deseja essas riquezas para poder comprar a metado do que recebemos de graça quando somos amados? E quem pode me amar de verdade senão um outro ser como eu, que me ame como ser hukano...e apesar disso? Nenhum bicho, por mais carinhoso que seja, pode me dar tanto quanto outro ser humano, mesmo que seja um ser humano antipático. É certo que, em todo cado, devo tratar os homens com cuidado. Mas esse "cuidado" não pode consistir antes de tudo em suspeita ou prevenção, mas na consideração que se tem ao lidar com as coisas frágeis, as coisas mais frágeis de todas...por não serem simples coisas. Como o vínculo de respeito e amizade para com os outros humanos é o mais precioso do mundo para mim, que também sou humano, quando me vejo diante deles deve ter o maior interesse em resguardá-los e em até mimá-los, se é que você me entende. Nem na hora de salvar a pele é aconselhável que eu esqueça completamente essa prioridade.


(...) em que consiste tratar as pessoas como pessoas, ou seja, humanamente? Resposta: consiste em tentar colocar-se em seu lugar. Entender alguém como semelhante implica sobretudo a possibilidade de compreendê-lo a partir de dentro, de adotar por um momento seu próprio ponto de vista. É algo que só possso pretender de maneira muito romântica e muito duvidosa com um morcego ou um gerânimo, mas que, em compensação, impõem-se com os seres capazes, como eu, de manejar símbolos. Afinal, sempre que falamos com alguém, o que fazemos é estabelecer um terreno no qula quem agora é "eu" sabe que se transformará em "você", e vice-versa. Se não admitíssemos que existe algo fundamentalmente igual entre nós (a possibilidade de ser para o outro o que o outro é para mim) não poderíamos trocar nem um palavra. Onde há troca também há reconhecimento de que de certo modo pertencemos a quem está diante de nós e quem está diante de nós nos pertence... E isso mesmo que eu seja jovem e o outor velho, que eu seja home e outro mulher, mesmo que eu seja branco e o outro negro, que eu seja bobo e o outro esperto, mesmo que eu esteja são e o outro doente, que eu seja rico e o outro pobre. "Sou humano" - disse um antigo poeta latino - "e nada do que é humano pode parecer0me alheio". Ou seja, ter consciência do que é humano consiste em dar-me conta de que, apesar de todas as diferenças muito reais entre os indivíduos, também estou de certo modo dentro de cada um dos meus semelhantes. Para começar, como palavra...

(...) Em suma, pôr-se no lugar do outro é levá-lo a sério, considerá-lo tão plenamente real como você mesmo.

(...) Não estou dizendo que haja algum mal em você ter seus próprios interesses, nem que você sempre deve renunciar a eles para dar prioridade aos de seu vizinho. Os seus interesses, decerto, são tão respeitáveis quano os dele, e o resto é conversa. Mas atente para a própria palavra "interesse": ela vem do latim inter esse, o que está entre vários, o que coloca vários em relação. Ao falar em "relativizar" seu interesse, quero dizer que esse interesse não é algo exclusivamente seu, com ose você visse sozinho num mundo de fantasmas, mas é algo que colcoa você em contato com outras realidades, tão "de verdade" quanto você mesmo. De modo que todos os interesses que você possa ter são muito relativos (conforme outros interesses, conforme as circunstâncias, conforme leis e costumes da sociedade em que você vive), com exceção de um interesse, o único interesse absoluto: o interesse de ser humano entre os humanos, de dar e receber o tratamento de humanidade sem o qual não pode haver "vida boa".

                                           SAVATER, Fernando. Ética para meu filho, 2º ed, São Paulo: Planeta, 2012.


 


segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Democracia racial: mito ou realidade? - Abdias do Nascimento

 Trechos selecionados de texto publicado no Portal Geledés 

O Brasil, como nação, se proclama a única democracia racial do mundo, e grande parte do mundo a vê e respeita como tal.
Mas, um exame de seu desenvolvimento histórico revela a verdadeira natureza de sua estrutura social, cultural e política: é essencialmente racista e vitalmente ameaçadora para os negros.
Através da era da escravidão, de 1530 a 1888, o Brasil levou a cabo uma política de liquidação sistemática dos africanos.
Desde a abolição legal da escravidão, em 1888, até agora, essa política tem sido levada avante por meio de mecanismos bem definidos de opressão, mantendo a supremacia branca isenta de ameaças neste país.
Durante a escravidão, a opressão aos africanos era tão flagrante que mereceu pouca atenção aqui; eram considerados sub-umanos e forçados a viver na imundície, miséria e degradação de seu status social. Isso significa negligência médica e higiênica, desnutrição, sujeição e abuso sexual.
Essa opressão física e econômica resultou na degradação mental e cultural do escravo, como todos estamos familiarizados. Depois da abolição, os senhores, principalmente os possuidores das plantações de café nos estados do Sul, recusaram-se a empregar os negros livres como trabalhadores, dando preferência aos imigrantes europeus brancos.
Assim negavam a seus antigos escravos os elementos mais básicos de subsistência, acusando-os de indolência e de não terem interesse em levar uma vida produtiva.
Eles ignoravam um fator básico: eles próprios haviam transformado o escravo em “pouco mais que uma besta e pouco menos que uma criança”, através da exploração infame, transformando os resultados de sua exploração em argumento contrário a qualquer possibilidade do escravo ser um homem livre.
Desde os tempos da escravidão, o instrumento mais valioso de genocídio físico e espiritual da raça Negra tem sido a estrutura do poder político de branqueamento da população brasileira.
Os testemunhos da orientação, predominantemente racista, são muitos e variados.
Atestam a atitude prevalecente de que a população brasileira era feia e geneticamente inferior por causa da presença do sangue negro, precisando por essa razão “se fortalecer através da junção com os valores superiores da raça européia”.
Essa atitude era endossada pela teoria supostamente científica e sociológica, que fornecia suporte intelectual vital à política da classe dominante.
“O meu argumento é que a futura vitória na luta pela vida entre nós pertencerá aos brancos”. O escritor José Veríssimo anotou: “Como nos asseguram os etnógrafos, e como pode ser confirmado ao primeiro olhar, a mistura de raças está facilitando o prevalecimento da raça superior aqui.
Mais cedo ou mais tarde, irá eliminar a raça negra.
Aqui, isto, obviamente já está acontecendo”.
(...) 

Neste pretensioso conceito de “democracia racial”, apenas um dos elementos raciais tem qualquer direito ou poder: o branco.
Ele controla os meios de disseminação da informação, os conceitos educacionais, as definições e valores.
(...)
O papel do escravo negro foi crucial para os começos da história e economia política em um país fundado, como Brasil, sobre o imperialismo parasitário

Sem a escravidão, a estrutura econômica não poderia ter existido.

O escravo construiu as funções econômicas da nova sociedade, curvando e quebrando sua espinha; seu trabalho foi a espinha dorsal da economia. Alimentava e reunia a riqueza física do país com seu sangue e suor, apenas para ver os lucros de seu trabalho apropriados pela força da aristocracia branca. Nas plantações de açúcar e café, nas minas, nas cidades, o africano era os pés da classe branca dominante, que não se degradava a si próprio com o trabalho. As ocupações primárias da classe branca dominante eram a indolência, o culto da ignorância e do preconceito, e a mais debochada luxúria.

(...) 

O Brasil herdou a estrutura de família patriarcal de Portugal; e o preço dessa herança foi pago pela mulher negra, e não só durante a escravidão. Mesmo hoje, a mulher negra, por causa de sua pobreza e falta de status social, é presa fácil e vulnerável da agressão do homem branco. Fato este que foi corajosamente denunciado no manifesto das mulheres negras brasileiras, unidas em um congresso nacional na Associação Brasileira de Imprensa, Rio de Janeiro, 1975.

Esta realidade social é diametralmente oposta ao mito prevalente que promove o desenvolvimento social do Brasil como um processo fácil de integração. Os homens portugueses, de acordo com este mito, não tinham preconceito de raça, ao contrário, sua falta de preconceito lhes permitiu manter uma interação sexual sadia com a mulher negra. Entretanto, um velho dito deste país, tão popular hoje como há um século atrás, desmente este mito, denunciando-o como uma falsa concepção estabelecida pela classe dominante.

O crime sexual da violência, cometido contra a mulher negra pelo macho branco, foi perpetuado através das gerações pelos seus próprios filhos mulatos, que herdaram o precário prestígio de seus pais e continuaram a explorar a mulher negra. Em uma tentativa de aliviar sua própria culpa nesta exploração sexual, a classe dirigente proclamou o mulato como a chave da solução do problema racial: o começo da liquidação da raça negra e o branqueamento da população brasileira. Mas, apesar de qualquer aparente vantagem de status social, a posição do mulato é na realidade equivalente à do negro: o mulato sofre o mesmo desprezo, discriminação e preconceito na sociedade branca.

* Trecho da tese apresentada por Abdias do Nascimento no II Festival de Artes e Culturas Negras e Africanas (Festac), em 1977.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Ética para meu filho, Fernando Savater

"(...) Se eu não pensar no que faço mais de uma vez, talvez me baste a resposta de que estou agindo assim "porque é costume". Mas por que diabos tenho de fazer sempre o que se costuma fazer (ou o que costumo fazer)? Nem que eu fosse escravo dos que me cercam, por mais que sejam meus amigos, ou do que fiz ontem, anteontem ou no mês passado! Se vivo cercado de gente que tem o costume de discriminar os negros, e se não acho isso certo de jeito algum, por que devo imitá-los? Se me acostumei a pedir dinheiro emprestado e não devolver, mas cada vez tenho mais vergonha de fazê-lo, por que não mudar de comportamento e começar, a partir de agora, a ser mais correto? Por acaso um costume não pode ser pouco conveniente para mim, por mais acostumado que eu esteja? Quando me interrogo pela segunda vez sobre meus caprichos, o resultado é parecido. Muitas vezes tenho vontade de fazer coisas que logo se voltam contra mim, das quais depois me arrependo. Em assuntos sem importância o capricho pode ser aceitável, mas, quando se trata de coisas mais sérias, deixar-me levar por ele, sem refletir sobre se é um capricho conveniente ou inconveniente, pode ser muito pouco aconselhável, até perigoso: o capricho de sempre atravessar os semáforos no vermelho pode ser divertido uma ou duas vezes, mas será que vou conseguir viver muito se continuar a fazê-lo dia após dia?

(...) A palavra "moral" tem a ver, etimologicamente, com os costumes, pois é exatamente isso que significa o termo latino mores e também com as ordens, pois a maioria dos preceitos morais soam como "você deve fazer isso" ou "nem pense em fazer aquilo". No entanto, há ordens e costumes - como já vimos - que podem ser maus, ou seja, imorais, por mais ordenados e "acostumados" que se apresentem. Se quisermos nos aprofundar de verdade na moral, se quisermos aprender seriamente a empregar bem a liberdade que temos (e é justamente nesse aprendizado que consiste a "moral" ou "ética" de estamos falando aqui), é melhor deixarmos de lado ordens, costumes e caprichos. A primeira coisa que é preciso deixar claro é que a ética de um homem livre nada tem a ver com os castigos nem com os prêmios distribuídos pela autoridade, seja ela autoridade humana ou divina - neste caso, tanto faz. Quem não faz mais do que fugir do castigo e buscar a recompensa conferida por outros, segundo normas estabelecidas por eles, não é melhor do que um pobre escravo. (...) Aqui vai um esclarecimento terminológico. Embora eu vá utilizar as palavras "moral" e "ética" como equivalentes, de um ponto de vista técnico (desculpe-me estar mais professoral do que de hábito) elas não têm significado idêntico. "Moral" é o conjunto de comportamentos e normas que você, eu e algumas das pessoas que nos cercam costumamos aceitar com válidos; "ética" é a reflexão sobre por que os consideramos válidos e a comparação com outras "morais" de pessoas diferentes. Mas, enfim, aqui continuarei utilizando as duas palavras indistintamente, sempre como arte de viver. A academia que me perdoe...

Lembre-se de que as palavras "bom" e "mau" não se aplicam apenas a comportamentos morais, nem apenas a pessoas. (...)

Para alguns, ser bom significará ser resignado e paciente, mas outros considerarão boa a pessoa empreendedora, original, que não se acovarda na hora de dizer o que pensa, mesmo que possa incomodar alguém. Em países como a África do Sul, por exemplo alguns considerarão bom o negro que não reclama e se conforma com o aparthaid, ao passo que outros só chamarão assim os que seguem Nelson Mandela. Sabe por que não é fácil dizer quando um ser humano é "bom" e quando não é? Porque não sabemos para que servem os seres humanos. (...)

É possível ser um bom homem (e uma boa mulher, é claro) de muitas maneiras, e as opiniões que julgam os comportamentos geralmente variam conforme as circunstâncias. Por isso, às vezes, dizemos que Fulano ou Sicrana são bons "a seu modo". Admitimos assim que há muitas formas de sê-lo e que a questão depende do âmbito em que cada um se move. Como você vê, não é fácil determinar de fora quem é bom e quem é mau, quem faz o que convém e quem não faz. Seria preciso estudar não apenas todas as circunstâncias de cada caso, mas até as intenções que movem cada um. Pois poderia acontecer que alguém pretendesse fazer alguma coisa má e, por acaso, acabasse obtendo um resultado aparentemente bom. E não chamaríamos "bom" alguém que fizesse algo bom por mero acaso, não é mesmo? Também é verdade o contrário: com a melhor intenção do mundo alguém poderia provocar um desastre e ser considerado um monstro, sem ter culpa. Mas acho que por esse caminho tiraremos pouca coisa a limpo, sinto muito."

SAVATER, Fernando. Ética para meu filho, 2º ed, São Paulo: Planeta, 2012. 

Igualdade entre homens e mulheres (1622) - Marie de Gournay

  “A maioria dos que defendem a causa das mulheres, lutando contra essa orgulhosa preferência que os homens se atribuem, lhes dá o troco com...