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quarta-feira, 24 de março de 2021

O que é Filosofia? (O mundo de Sofia - Romance da história da filosofia - Jostein Gaarder)

Querida Sofia, 

Muitas pessoas têm hobbies diferentes. Algumas colecionam moedas e selos antigos, outras gostam de trabalhos manuais, outras ainda dedicam quase todo o seu tempo livre a uma determinada modalidade de esporte.

Também há os que gostam de ler. Mas os tipos de leitura também são muito diferentes. Alguns lêem apenas jornais ou gibis, outros gostam de romances, outros ainda preferem livros sobre temas diversos como astronomia, a vida dos animais ou as novas descobertas da tecnologia.

Se me interesso por cavalos ou pedras preciosas, não posso querer que todos os outros tenham o mesmo interesse. Se fico grudado na televisão assistindo a todas as transmissões de esporte, tenho que aceitar que outras pessoas achem o esporte uma chatice.

Mas será que existe alguma coisa que interessa a todos? Será que existe alguma coisa que concerne a todos, não importando quem são ou onde se encontram? Sim, querida Sofia, existem questões que deveriam interessar a todas as pessoas. E é sobre tais questões que trata este curso.

Qual é a coisa mais importante da vida? Se fazemos esta pergunta a uma pessoa de um país assolado pela fome, a resposta será: a comida. Se fazemos a mesma pergunta a quem está morrendo de frio, então a resposta será: o calor. E quando perguntamos a alguém que se sente sozinho e isolado, então certamente a resposta será: a companhia de outras pessoas.

Mas, uma vez satisfeitas todas essas necessidades, será que ainda resta alguma coisa de que todo mundo precise? Os filósofos acham que sim. Eles acham que o ser humano não vive apenas de pão. É claro que todo mundo precisa comer. E precisa também de amor e de cuidado. Mas ainda há uma coisa de que todos nós precisamos. Nós temos a necessidade de descobrir quem somos e por que vivemos.

Portanto, interessar-se em saber por que vivemos não é um interesse "casual" como colecionar selos, por exemplo. Quem se interessa por tais questões toca um problema que vem sendo discutido pelo homem praticamente desde quando passamos a habitar este planeta. A questão de saber como surgiu o universo, a Terra e a vida por aqui é uma questão maior e mais importante do que saber quem ganhou mais medalhas de ouro nos últimos Jogos Olímpicos.

O melhor meio de se aproximar da filosofia é fazer perguntas filosóficas:

Como o mundo foi criado? Será que existe uma vontade ou um sentido por detrás do que ocorre? Há vida depois da morte? Como podemos responder a estas perguntas? E, principalmente: como devemos viver?

Essas perguntas têm sido feitas pelas pessoas de todas as épocas. Não conhecemos nenhuma cultura que não se tenha perguntado quem é o ser humano e de onde veio o mundo.

Basicamente, não há muitas perguntas filosóficas para se fazer. Já fizemos algumas das mais importantes. Mas a história nos mostra diferentes respostas para cada uma dessas perguntas que estamos fazendo.

É mais fácil, portanto, fazer perguntas filosóficas do que respondê-las.

Da mesma forma, hoje em dia cada um de nós deve encontrar a sua resposta para estas perguntas. Não dá para procurar numa enciclopédia se existe um Deus, ou se há vida após a morte. A enciclopédia também não nos diz como devemos viver. Mas a leitura do que outras pessoas pensaram pode nos ser útil quando precisamos construir nossa própria imagem do mundo e da vida.

A busca dos filósofos pela verdade pode ser comparada com uma história policial. Alguns acham que Andersen é o criminoso; outros acham que é Nielsen ou Jepsen. Um crime na vida real pode chegar a ser desvendado pela polícia um dia. Mas também podemos imaginar que a polícia nunca consiga solucionar determinado caso, embora a solução para ele esteja em algum lugar. 

Mesmo que seja difícil responder a uma pergunta, isto não significa que ela não tenha uma - e só uma - reposta certa. Ou há algum tipo de vida depois da morte, ou não. 

Muitos dos antigos enigmas foram resolvidos pela ciência ao longo dos anos. Antigamente, um grande enigma era saber como era o lado escuro da Lua. Não era possível chegar a uma resposta apenas através de discussão; a resposta ficava par a imaginação de cada um. Hoje, porém, sabemos exatamente como é o lado escuro da Lua. Não dá mais para "acreditar" que há um homem morando na Lua, nem que ela é um grande queijo, todo cheio de buracos. 

Um dos antigos filósofos gregos, que viveu há mais de dois mil anos, acreditava que a filosofia era fruto da capacidade do homem de se admirar com as coisas. Ele achava que para o homem a vida é algo tão singular que as perguntas filosóficas surgem como que espontaneamente. É como o que ocorre quando assistimos a um truque de mágica: não conseguimos entender como é possível acontecer aquilo que estamos vendo diante dos nossos olhos. E então, depois de assistirmos à apresentação, nos perguntamos: como é que o mágico conseguiu transformar dois lenços de seda brancos num coelhinho vivo?

Para muitas pessoas, o mundo é tão incompreensível quanto o coelhinho que um mágico tira de uma cartola que, há poucos instantes, estava vazia. 

No caso do coelhinho, sabemos perfeitamente que o mágico nos iludiu. Quando falamos sobre o mundo, as coisas são um pouco diferentes. Sabemos que o mundo não é mentira ou ilusão, pois estamos vivendo nele, somos parte dele. No fundo, somos o coelhinho branco que é tirado da cartola. A única diferença entre nós e o coelhinho branco é que o coelhinho não sabe que está participando de um truque de mágica. Conosco é diferente. Sabemos que estamos fazendo parte de algo misterioso e gostaríamos de poder explicar como tudo funciona. 

PS. Quanto ao coelhinho branco, talvez seja melhor compará-lo com todo o universo. Nós, que vivemos aqui, somos os bichinhos microscópicos que vivem na base dos pelos do coelho. Mas os filósofos tentam subir da base para a ponta dos finos pelos, a fim de poder olhar dentro dos olhos do grande mágico. 

GAARDER, JOSTEIN, O mundo de Sofia: romance da história da filosofia, tradução João Azenha Jr., São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 



terça-feira, 23 de março de 2021

A arte de viver - Epicteto

 As coisas em si não nos ferem ou nos criam obstáculos. Nem as outras pessoas. A questão está na forma como as encaramos. São nossas atitudes e reações que nos criam problemas. 

Sendo assim, até a morte deixa de ser tão importante. É a nossa noção da morte, a ideia que fazemos dela que é terrível, que nos aterroriza. Existem muitas maneiras de pensar na morte. Examine suas noções a respeito da morte - e também sobre tudo o mais. Essas noções são de fato verdadeiras? Fazem algum bem a você? Não tema a morte ou a dor, tema o medo da morte ou da dor. 

Não podemos escolher as circunstâncias externas de nossa vida, mas sempre podemos escolher a maneira como reagimos a elas. (p.30)

 

Existem tempo e lugar certos para diversão e distração, mas nunca permita que elas se sobreponham aos seus verdadeiros objetivos pessoais. Se você estivesse viajando e o navio ancorasse em uma enseada, você poderia ir a terra em busca de água e no caminho parar para pegar uma concha ou colher uma planta. Mas precisaria ter cuidado e ouvir o chamado do capitão, manter-se atento ao navio. Distrair-se com bobagens é a coisa mais fácil do mundo.  Se o capitão chamasse, você teria de estar pronto para deixar de lado essas distrações e voltar correndo, talvez até sem tempo de olhar para trás.

Se você não for jovem, não se afaste muito do navio ou poderá não ter tempo de chegar lá quando o chamarem. (p.34)

 

EPICTETO, A arte de viver, trad. Maria Luiza Newlands da Silveira, Rio de Janeiro: Sextante, 2018.



 

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A Filosofia e o cotidiano: engajamento político

É comum encontramos um grande número de pessoas que dizem não gostar de política. Muitos repetem essa afirmação quase automaticamente, sem fazer uso de maiores análises ou de reflexões mais profundas. Todavia, a política é uma atividade que, mesmo rejeitada e incompreendida, é parte essencial da vida cotidiana. 

Foi por meio da atividade política que se garantiram alguns direitos comuns às várias sociedades e, com estes, vieram também deveres que tornaram possível a convivência entre as pessoas e o surgimento da sociedade civil. 

Mas será que a política é uma atividade realizada apenas pelos que se ocupam do poder, ou seja, pelos políticos? Será também que não podemos fazer nada para melhorar as condições do bairro ou da cidade em que vivemos? Como podemos interferir ou dar nossa opinião se acreditamos que a política não tem nada a ver conosco?

Essas perguntas nos levam a pensar sobre nosso papel de cidadãos e o modo como interferimos na vida de nossa cidade ou mesmo de nosso país. 

Cotidianamente, costumamos compreender como ações políticas apenas aquelas que são realizadas pelo Estado, seus representantes ou pelas instituições sociais. No entanto, quando nos organizamos em associações de bairro ou realizamos abaixo-assinados para pedirmos melhorias na iluminação pública, por exemplo, também estamos fazendo política. Ela está presente na maioria das relações sociais e não diz respeito apenas aos políticos: é uma atividade realizada por todos os cidadãos. 

Aristóteles considerava o homem como um animal político. Um ser que se envolve na vida da cidade e age eticamente em vista de um fim maior, que é o bem dos cidadãos como um todo. A consciência de que apenas estar inserido na sociedade não é prova de que haja cidadania é um aspecto extremamente importante na tentativa de construir um sistema político forte e estruturado.

A condição de cidadão se dá na participação política daquele que se proclama como tal, e esta passa por qualquer contribuição pessoal ou coletiva que vise à melhoria da sociedade. 

Na história do Brasil não foram poucas vezes que o povo se mobilizou pro causas, governos ou proposições consideradas injustas. Revoltas populares como a Revolta da Vacina e a Revolta da Chibata, ocorridas na Primeira República, mostravam que a história brasileira, ao contrário do que se costuma afirmar, está repleta de lutas contra a discriminação e pela construção da igualdade. A ditadura militar, por exemplo, acabou em 1985, e ainda vivemos as consequências da tortura e do desaparecimento de presos políticos, permanecendo muitos casos ainda sem solução. Em 1992, a população saiu às ruas para pedir a deposição (impeachment) do presidente Fernando Collor. Na ocasião, a participação dos jovens foi fundamental. 

As mobilizações populares são um termômetro da insatisfação do povo e ajudam a pressionar os governantes a rever posturas e traçar novos caminhos. Em junho de 2013, milhares de pessoas foram às ruas para reivindicar a redução da tarifa de ônibus em São Paulo. Algumas reações violentas por parte das autoridades e o aparato das redes sociais levaram o movimento a assumir grandes proporções, espalhando-se por todo o país. Uma mobilização dessa proporção não era vista há algum tempo no país e abriu espaço para discussões sobre novas formas de protestos e de engajamento político.

Reivindicar os serviços a que se tem direito, cobrar daqueles que governam o país que apresentem uma postura ética e transparente são formas de participação política, do mesmo modo que a preocupação com a reciclagem do lixo ou com o desperdício da água também são. Antes de começarmos essa conversa, porém, vejamos como alguns jovens se mobilizaram politicamente em um importante momento da história recente. 

Autoridade e poder

(...) tecnicamente e em sentido mais amplo, podemos definir a política como o conjunto das relações de poder vividas na sociedade. Desde o núcleo familiar até o ambiente profissional estamos diariamente submersos em relações políticas, ou melhor, relações que são regidas por alguma espécie de poder. 

Em nossos empregos vivemos sob as regras que nos são impostas pelas empresas, seus horários, procedimentos e hierarquias. Na família, a autoridade dos pais é um valor frequentemente cultivado. Nas religiões, os líderes espirituais têm o respeito e orientam a vida dos seus fiéis. A vida social é organizada pelas relações de poder, e este consiste na maneira como os indivíduos estabelecem relações de força, com base em sua situação na sociedade.

Ao usar o termo força, não estamos nos referindo à força física. Em política podemos definir força como a capacidade de incentivar ou de inibir ações. Os valores que adquirimos no decorrer de nossas vidas fazem que respeitemos algumas pessoas como nossos pais e reconheçamos a autoridade de algumas instituições como as igrejas, a escola ou a polícia, por exemplo. Essa autoridade se constitui porque há um grupo que a exerce e um grupo que a reconhece, legitimando-a por um acordo, tradição ou mesmo por uma imposição. 

Por que é importante entendermos esses termos? Justamente, porque a participação política tem a ver com a realização constante de uma crítica sobre a legitimidade do poder a que estamos submetidos. Devemos acompanhar as ações que nos governam e protegem para termos a certeza de que o melhor para todos está sendo realizado, sem que interesses particulares particulares estejam à frente dos interesses do povo. 

A democracia é uma forma de garantir que todos tenham acesso e o direito a certa gama de bens comuns, garantidos e especificados nas leis: saúde, moradia, direitos trabalhistas, por exemplo. Avançar politicamente é possibilitar que essa consciência seja partilhada por todos. Perceber que ações individuais podem afetar direitos coletivos, envolver-se nas questões que influenciam a vida de nosso bairro, mobilizar-se em prol de uma causa podem ser considerados frutos de uma conscientização política. 

Se pensarmos em nossas relações com a sociedade, veremos que um dos elementos centrais das transformações que ocorrem em nosso meio é o trabalho. Por meio dele, as pessoas transformam as coisas do mundo, mas também transformam a si mesmas. É pela lógica do trabalho que se estabelecem relações sociais, profissionais e afetivas entre as pessoas. Além disso, o trabalho é uma forma de superar o determinismo e as condições impostas pela natureza e por outras pessoas. No entanto, há o trabalho que liberta, gera disciplina, e o trabalho que aliena e aprisiona. Esta última maneira se encararmos o trabalho produz distorções na sociedade que somente se amenizam por meio da conscientização e da participação política dos trabalhadores. Soma-se a isso o fato de que devemos também prestar atenção às questões relativas ao lazer, que podemos considerar como uma contraparte fundamental para as atividades profissionais. 

Texto retirado do material Coleção Viver, Aprender, Ciências Humanas, Ensino Médio, São Paulo: editora Global, 2013..

Igualdade entre homens e mulheres (1622) - Marie de Gournay

  “A maioria dos que defendem a causa das mulheres, lutando contra essa orgulhosa preferência que os homens se atribuem, lhes dá o troco com...