segunda-feira, 3 de maio de 2021

O pensamento filosófico e a tarefa da filosofia

 A filosofia é um modo de pensar, é uma postura diante do mundo. Ela não é um conjunto de conhecimentos prontos, um sistema acabado, fechado em si mesmo. Ela é, antes de mais nada, um modo de se colocar diante da realidade,  procurando refletir sobre os acontecimentos a partir de certas posições teóricas. Essa reflexão permite ir além da pura aparência dos fenômenos, em busca de suas raízes e de sua contextualização em um horizonte amplo, que abrange os valores sociais, históricos, econômicos, políticos, éticos e estéticos. Por essa razão, ela pode se voltar para qualquer objeto.  Pode pensar sobre a ciência, seus valores, seus métodos, seus mitos; pode pensar a respeito da religião; pode pensar sober a arte; pode pensar acerca do próprio ser humano em sua vida cotidiana. Uma história em quadrinhos ou uma canção popular também podem ser objeto da reflexão filosófica. 

A filosofia é um jogo irreverente que parte do que existe, critica, coloca em dúvida, faz perguntas importuna, abre as portas das possibilidades, faz-nos entrever outros mundo e outros modos de compreender a vida. 

A filosofia incomoda porque questiona o modo de ser das pessoas, das culturas, do mundo. Questiona as práticas política, científica, técnica, ética, econômica, cultural  e artística.  Não há área em que ela não se meta, não indague, não perturbe. E, nesse sentido, a filosofia é perigosa,  subversiva,  pois vira a ordem estabelecida de cabeça para baixo. 

Essa subversão da ordem, entretanto, não é feita gratuitamente, não é um quebrar regras e costumes simplesmente por quebrar. A maior parte dos filósofos subverteu a ordem porque, ao indagar sobre a realidade de sua época, fez surgir novas possibildiades de comportamento e de relação social.  Do ponto de vista da ordem estabelecida, isto é, das instituições e da ideologia dominante, eles destruíram uma tradição. Do ponto de vista da história, eles nos fizeram ver injustiças, arbitrariedades, estratagemas de dominação e de exploração. 

Se o patriarcalismo, como ordem divina da criação, por exemplo, não tivesse sido colocado em dúvida por pensadores de ambos os sexos e por pessoas engajadas no movimento em prol da igualdade de homens e mulheres em termos de capacidade intelectual e moral, estas, ou seja, mais de 50% da população mundial, ainda hoje não seria considerada cidadã nem teria direito de votar e ser votada. 

(...)

Quando a filosofia surgiu, entre os gregos, no século VI a.C, ela englobava tanto a indagação filosófica propriamente dita quanto o que hoje chamamos de conhecimento científico. O filósofo teorizava sobre todos os assuntos, procurando responder ao porquê das coisas. É por isso que os filósofos Tales e Pitágoras e depois o matemático Euclides (de Alexandria) dedicaram-se também ao estudo da gemometria. Aristóteles, por sua vez, debruçou-se sobre problemas físicos e astronômicos, porque estes interessavam à cultura e à sociedade de sua época

Foi a partir do século XVII, com Galileu Galilei e o aperfeiçoamento do método científico, fundado na observação, experimentação e matematização dos resultados, que a ciência começou a se constituir como forma específica de abordagem do real e a se destacar da filosofia. Apareceram, pouco a pouco, as ciências particulares, que investigam a realidade sob pontos de vista específicos: à física interessam os movimentos dos corpos; à biologia, a natureza dos seres vivos; à química, as transformações das substâncias; à psicologia, os mecanismos do funcionamento da mente humana; à sociologia, a organização social etc.

A partir de então, o conhecimento foi fragmentado entre as várias ciências, pois cada qual se ocupava somente de de uma pequena parte do real . As afirmações de cada uma elas são chamadas juízos de realidade,  porque se referem aos fenômenos e pretendem mostrar como  estes ocorrem e como se relacionam. De posse desses dados, torna-se possível prevê-los e controlá-los. 

A filosofia trata dessa mesma realidade, mas, em vez de fragmentá-la em conhecimentos particulares, toma-a como totalidade de fenômenos, ou seja, considera a realidade a partir de uma visão de conjunto. Qualquer que seja o problema, a reflexão filosófica leva em conta cada um de seus aspectos, relacionando-o ao contexto dentro do qual ele se insere e restabelecendo a integridade do universo humano. 

(...)

Cabe ao filósofo refletir sobre o que é ciência, o que é metodo científico, sua validade e seus limites. A ciência é realmente um conhecimento objetivo? O que é a objetividade e até que ponto um sujeito histórico - o cientista - pode ser objetivo? 

Cabe a ele refletir sobre a arte: o belo existe? É um critério para se determinar o que é a arte? Ou haverá outros valores estéticos mais adequados para esse julgmento? (...) Compete ao filósofo, também, refletir sobre a condição humana atual: O que é o ser humano? O que é liberdade? O que é trabalho? 

(...) 

A filosofia quer encontrar o significado mais profundo dos fenômenos. Não basta saber como eles acontecem, mas o que significam na ordem geral do mundo humano. Ela também emite juízos de valor ao julgar cada fato, cada ação em relação ao todo. Ela também vai além daquilo que é, para propor o que poderia ser. É, portanto, indispensável para a vida de todos aqueles que desejam ser seres humanos completos, cidadãos livres e responsáveis por suas escolhas. 

texto selecionado e retirado do livro Temas de Filosofia, de Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helea Pires Martins (Editora Moderna, 2005)

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Olympe de Gouges(1748-1793) - Rosa Montero - Nós, mulheres: grandes vidas femininas

 É curioso o papel da viuvez na vida das mulheres; foi, com frequência, a única via para conquistar a independência, e muitas enviuvaram abominando a institução do matrimônio. Foi o que aconteceu com Olympe, filha de um açougueiro de Montauban, na França. Seu esposo, muito mais velho que ela, morreu cedo, deixando-a com um filho e sem a menor vontade de se casar novamente. Olympe foi para Paris e viveu como escritora e dramaturga. Foi muito ativa na causa antiescravagista; escreveu duas obras de teatro e um ensaio político sobre o tema. O primeiro dos dois dramas, Le Esclavage des noirs [A escravidão dos negros], não só foi proibido como como também encarceraram brevemente a autora na Bastilha; após a Revolução, o drama foi por fim representado na Comédie-Française. Olympe era, naturalmente, revolucionária; em 1791 publicou sua famosa Declaração dos direitos da mulher e da cidadã, porque, como outras pessoas (entre elas, o filósofo Condoercet), acreditou que quando se falava em direitos do homem também estavam incluídos os da mulher. Equivocaram-se. Preocupada com os abusos de poder de Robespierre e de Marat, essa mulher honesta e corajosa criticou-os duramente. Foi detida em agosto de 1793. Da prisão pediu várias vezes, para ter chance de defesa, que fosse julgada pelos tribunais ordinários, em vez de ser enviada para o terrível tribunal revolucionário. Numa tentativa desesperada de se salvar, escreveu clandestinamente dois panfletos, Olympe de Gouges no tribunal revolucionário e Uma patriota perseguida, que conseguiu mandar para fora da prisão. Ambos os textos circularam em Paris e foram muito lidos, mas de nada adiantaram: em 2 de novembro de 1793 ela foi conduzida sem advogado para a pantomina do tribunal revolucionário. Foi para guilhotina do dis seguinte. Seu único filho renego-a publicamente após sua morte, talvez por medo de ser preso. 

MONTERO, Rosa, Nós, mulheres: grandes vidas femininas, tradução Josely Vianna Baptista, São Paulo: Todavia, 2020.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Conhecimento e Verdade

"Conhecimento e verdade são dois conceitos diferentes. Mas também são solidários. Nenhum conhecimento é a verdade; mas um conhecimento que não fosse verdadeiro não seria um conhecimento (seria um delírio, um erro, uma ilusão...). Nenhum conhecimento é absoluto; mas só é um conhecimento - e não simplesmente uma crença ou uma opinião - pela parte de absoluto que comporta ou autoriza. 

Seja, por exemplo, o movimento da Terra em torno do Sol. Ninguém pode conhecê-lo absolutamente, totalmente, perfeitamente. Mas sabemos que esse movimento existe e que se trata de um movimento de translação. As teorias de Copérnico e de Newton, por mais relativas que sejam (já que são teorias), são mais verdadeiras e mais seguras - logo, mais absolutas - do que as de Hiparco ou de Ptolomeu. [...] [Dizer que] todo conhecimento é relativo não significa que todos os conhecimentos se equivalem. O progresso de Newton e Einstein é tão inconteste quanto o que vai de Ptolomeu a Newton. [...]

No entanto, não se deve confundir conhecimentos com ciências, nem reduzir aqueles a estas. Você conhece seu endereço, sua data de nascimento, seus vizinhos, seus amigos, seus gostos, enfim, mil e uma coisas que nenhuma ciência ensina nem garante. A percepção já é um saber, a experiência já é um saber, ainda que vago [...], sem o qual qualquer ciência seria impossível. 'Verdade científica' não é, portanto, um pleonasmo: há verdades não científicas e teorias científicas que descobriremos um dia não serem verdadeiras. [...]

Sem dúvida temos certezas, várias das quais nos parecem certezas de direito (certezas absolutamente fundamentadas ou justificadas); mas 'a certeza de que há certezas de direito nunca é mais que uma certeza de fato'. Cumpre concluir que a certeza mais sólida, a todo rigor, não prova nada: não há provas absolutamente probatórios. 

Devemos então renunciar a pensar? De jeito nenhum. 'Pode ser que haja demonstrações verdadeiras', observa Pascal, 'mas não é certo'. De fato, isso é coisa que não se pode demonstrar - já que toda demonstração a supõe. [...] Que tudo é incerto, não é uma razão para parar de buscar a verdade. Porque tampouco é certo que tudo é incerto, observava ainda Pascal, e é isso que dá razão aos céticos ao mesmo tempo que os impede de prová-lo. [...] O ceticismo não é o contrário do racionalismo; é um racionalismo lúcido e leva às últimas consequências - até o ponto em que a razão, por rigor, chega a duvidar da sua aparente certeza. Pois o que prova uma aparência?

A sofística é outra coisa: não pensar que nada é certo, mas pensar que nada é verdadeiro. Isso nem Montaigne nem Hume jamais escreveram. Como, se tivessem acreditado, teriam podido filosofar e por que teriam filosofado? O ceticismo é o contrário do dogmatismo; a sofística, o contrário do racionalismo ou mesmo da filosofia. Se anda fosse verdadeiro, que restaria da nossa razão? Como poderíamos discutir, argumentar, conhecer? 'A cada qual sua verdade?' Se fosse assim, já não haveria verdade nenhuma, porque ela só vale se for universal. [...] Quem não vê os perigos que aí se escondem? Se podemos fazer qualquer coisa: a sofística conduz ao niilismo, assim como o niilismo leva à barbárie. [...]

É por isso que, também, nunca acabaremos de buscar. Não porque não conhecemos nada, o que não é muito verossímil, mas porque nunca conhecemos tudo. O grande Aristóteles, com o seu habitual senso de proporção, diz uma coisa impecável: 'A busca da verdade é ao mesmo tempo difícil e fácil: ninguém pode alcançá-la absolutamente, nem deixá-la escapar totalmente'.

Entre a ignorância absoluta e o saber absoluto, há lugar para o conhecimento e para o progresso dos conhecimentos. 

(Comte-Spoiville, André. Apresentação da filosofia, São Paulo:Martins Fontes, 2002, p.57-64) 

Sofística: no contexto, parte da lógica que estuda os sofismas ou argumentos falaciosos, que dão a ilusão de validade.

Niilismo: do Latim nihil, "nada". É a posição de quem não acredita em anda ou de quem perdeu valores e objetivos. 

             Material retirado do livro Filosofando: introdução à filosofia, de Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins, 2016, p.81

Igualdade entre homens e mulheres (1622) - Marie de Gournay

  “A maioria dos que defendem a causa das mulheres, lutando contra essa orgulhosa preferência que os homens se atribuem, lhes dá o troco com...